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sexta-feira 7 agosto 2020
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Terra, terra: territórios, casa, corpos e vírus

Terra, terra: territórios, casa, corpos e vírus

 

Não, você não está preso.

Acredite: Prisão é outra coisa.

 

Estamos protegidos em casa,

Aqueles que temos casa,

Como Pedro Tierra bem lembrou.

 

Estamos a salvo em casa,

Aqueles que podemos estar em casa,

Como Tierra, o Pedro aqui de nossa terra,

Bem registrou.

 

Hoje é dia da Terra

E, talvez, pela primeira vez

Sentimos que estamos todos em risco.

 

Talvez, porque em risco

Há muito estamos

Talvez, porque, apesar de tudo,

Muitos de nós minimiza o risco.

 

Assim como, sem nunca ter vivido

O que é, em verdade, a comunhão,

Também não sabemos, agora,

Assentir com a distância

Que a solidariedade, neste momento

Implora…

 

Não tendo nunca sabido

Viver a liberdade fraterna

A que um planeta único conclama

Hoje confundimos proteção,

A proteção de nossas casas,

Com a terrível realidade de uma prisão.

 

Não tendo conseguido ainda

Dar o devido valor à presença

Acima dos bens e desejos fugazes

Que as vitrines alimentam num

Ciclo sem fim, simulando emergências,

Também agora não nos resignamos

Com uma ausência que nos promete

Mesmo vaga, alguma garantia.

 

Não tendo nunca atentado

Para o valor da ancestralidade

Assim como da presença viva da memória

E dos laços que unem passado e futuro,

Também não temos agora

Protegido, como se devia,

A força anciã que nos precede

Aqueles sem os quais não somos

E sem os quais jamais seríamos.

 

Hoje é dia da Terra

Dentro da qual a terra e o território

Foram assaltados de nossos povos indígenas

Iniciando-se com a invasão

Que faz anos neste mesmo dia.

 

Os mesmos indígenas tristemente comemorados

No dia 19 passado

Enquanto a exploração, assim como o vírus,

À semelhança de tantos outros

Que quase os levaram à extinção,

Invade seus corpos e territórios.

 

Não, você não está preso.

Acredite: Prisão é outra coisa.

 

Hoje é dia da Terra

A mesma terra que milhares de trabalhadores

Reclamam, dia após dia e, sobretudo,

Nestes dias vermelhos de abril,

Que revivem, por justiça,

A nefasta chacina em Carajás.

 

Hoje é dia da Terra

E, talvez, pela primeira vez

Sentimos que estamos todos em risco.

Sabendo, no fundo,

Que o risco, para muitos,

É tudo o que sempre houve.

 

Estamos a salvo em casa,

Aqueles que podemos estar em casa,

Como Tierra, o Pedro aqui de nossa terra,

Bem disse.

E hoje é dia da Terra,

Esta que o homem já quase exterminou.

 

Enquanto estamos em casa,

Aqueles que temos casa,

Possamos pensar talvez

Na parte que nos tem cabido

Para que agora não caiba a todos

Neste persistente latifúndio.

 

De casa, assistimos, atônitos ou cínicos,

Aos desastres da precarização

Do trabalho, dos corpos, da vida

Nós, que não tendo nunca sabido

O que é essencial, entre toda a parafernalha

Que nos é, instantânea e insistentemente, oferecida

Assistimos agora aos corpos que julgávamos desimportantes

A manter, em silêncio e persistência, a girar a roda

De todo o indispensável à manutenção de nossa vida.

 

Enquanto estamos em casa,

Talvez rezemos, envergonhados e mudos,

Para que os corpos a quem são negadas

Todas as formas de resistência possíveis

Resistam, agora, à fúria do descaso e do vírus.

 

Não, você não está preso.

Acredite: Prisão é outra coisa.

 

Enquanto estamos em casa,

Aqueles que temos casa,

A confundir proteção com prisão

Distância com indiferença

Liberdade com imprevidência,

Idade com descarte,

Possamos pensar talvez

Na parte que nos tem cabido,

Aninhados em cima do muro,

Para que agora não caiba a todos

No violento programa

A que se tem chamado futuro.

 

FOTO Isabella Faustino Alves

Defensora Pública Estadual (DPE-TO), mestranda em Ciências Jurídico-Políticas – Menção em Direito Constitucional, especialista em Direito Constitucional e em Direito do Estado.