Search
sexta-feira 20 setembro 2019
  • :
  • :

Dramaturga de origem quilombola fala sobre escravidão, resistência e invisibilidade social com contos, cantos e poesias em “Tumbeiros”

Premiado pelo Banco da Amazônia, o espetáculo de dança estreia neste mês de junho e é roteirizado por escritora natural de comunidade quilombola do Tocantins

“Um grito de dor ainda tão presente nos corpos afrodescendentes que ainda lutam uma guerra tão desleal que é a de afirmar o seu lugar no mundo.” Assim a dramaturga Fátima Salvador descreve um pouco do espetáculo de dança “Tumbeiros”, que será apresentado pelo Coletivo Agulha Cenas, em curta temporada no Teatro Sesc Palmas, nos dias 27, 28 e 29 de junho.

O roteiro traz contos, poesias e cantos que instigam à reflexão sobre a vinda dos povos africanos para o Brasil, a partir de um contexto histórico que traz a dureza de um período cruel, avassalador e, ao mesmo tempo, marca um processo de resistência à invisibilidade e ao desprezo facultado aos negros escravizados no Brasil. A dramaturga de Tumbeiros é de origem quilombola, da Comunidade Kalunga do Mimoso-Albino, localizada entre os municípios de Arraias e Paranã.

Uma pesquisa na história da comunidade quilombola e, consequentemente, de suas raízes, foi base para a construção do roteiro para Fátima Salvador. “A criação de Tumbeiros está conectada com as minhas origens quilombolas, que também se voltam para a comunidade que foi o local de refúgio dos meus ancestrais. Elas integram o roteiro por meio de uma narrativa que permeia a ‘história’ afrodescendente, desde a abordagem dos colonizadores, a permanência no navio negreiro, até a estadia em terras brasileiras”, descreve.

Pesquisa

De acordo com a dramaturga, o processo de pesquisa se iniciou a partir de uma proposta do Agulha Cenas, com a história de um negro chamado Fortunato que foi escravizado e estava desaparecido no período de escravidão e também sobre a existência do navio negreiro Tumbeiros, uma grande tumba que transportava os povos africanos para serem escravizados no Brasil, entre os séculos XVI e XVIII. “Pelo fato do meu projeto de pesquisa de conclusão de curso ser sobre as memórias narrativas de povos africanos, já estava contagiada e isso me ajudou a reverberar na escrita do Tumbeiros. Confesso que ainda é ‘doloroso’ para mim tocar em alguns pontos que dizem respeito à ‘perda da liberdade’ e ao preconceito vivenciado até hoje”, complementa.

fatima

Apesar disso, Fátima Salvador destaca que a construção do espetáculo é mais uma forma de resistência, de provocar uma reflexão sobre o que é estar na trincheira, marcando frente a um mundo com julgamentos de origens, cor de pele e status social. “Cada conto escrito foi uma imersão imagética em algum lugar que levava a pensar na força que esses povos tiveram, o meu povo”, diz.

Cantos

“Mandei, mandei, mandei voltar/ O mar que não obedecia/ levava os parentes lá.” Tumbeiros é repleto também de cantos que expressam a luta e história dos escravos no Brasil. Os cantos nasceram da reflexão sobre o trabalho e a opressão sofrida por estes povos, buscando um intermédio com sons e batuques de tribos africanas. Fátima Salvador define a oportunidade de se integrar ao projeto que resgata a história de seus ancestrais como algo sensível e marcante. “Ainda mais produzido pelo Agulha Cenas, que é tão responsável e comprometido com a excelência. Isso sem falar no fato de ser um espetáculo de dança, que é algo tão presente nos corpos africanos e que, de alguma forma, demonstra a expressividade do corpo e a sua constante luta em marcar a sua presença no mundo. Em se tratando de corpos negros, ao pensar na dança, é refletir sobre uma batalha constante para sair da invisibilidade social”, conclui.

Projeto

O projeto “Montagem: espetáculo Tumbeiros”, do coletivo palmense Agulha Cenas, foi contemplado pelo edital de patrocínios do Banco da Amazônia para o ano de 2019. O projeto já se encontra em execução, com ações artísticas e de contrapartida social, e culminará com a estreia do espetáculo “Tumbeiros”, que será apresentado no Teatro Sesc Palmas, nos dias 27, 28 e 29 de junho. Os ingressos antecipados já estão à venda na loja da Fundação Cultural de Palmas (FCP), no Capim Dourado Shopping. As sessões serão sempre às 20 horas, com uma sessão extra, às 17 horas do dia 29.

Como contrapartida social, o processo de montagem se desdobra na oferta de oficinas abertas de corpo, movimento e musicalidade. O Coletivo oferece ainda oficinas gratuitas para os participantes, viabilizadas em parceria com a Universidade Federal do Tocantins.

Agulha Cenas

Agulha Cenas foi idealizado pela bailarina Renata Oliveira e pelo músico Heitor Oliveira, agregando também o ator Fabrício Ferreira, a bailarina Josely Rocha, a atriz Fátima Salvador e a fotógrafa Flaviana OX. No ano de 2016, o grupo apresentou seu primeiro espetáculo, No Ciclo Eterno das Mudáveis Coisas, inspirado em textos de Fernando Pessoa e com direção de Juliano Casimiro.

O segundo trabalho, Horas Breves, com direção do Sleepwalk Collective estreou em março de 2018. Entre 18 e 25 de outubro de 2018, Agulha Cenas esteve em Vitoria-Gasteiz na Espanha para um Intercâmbio Cultural. O projeto foi organizado por Sleepwalk Collective e Factoria de Fuegos com patrocínio do município de Vitoria-Gasteiz e da Fundación Vital.

Ficha técnica

Coreografia e Direção Artística: Renata Oliveira

Composição e Direção Musical: Heitor Oliveira

Textos e Canções: Fátima Salvador

Fotografia e Design Gráfico: Flaviana OX

Figurinos: Vivian Oliveira

Cenário: Vivian Oliveira e André Senna

Iluminação: Lúcio de Miranda

Elenco: Elton Fialho, Fabrício Ferreira, Maria Antônia Dantas e Renata Oliveira

Assessoria de imprensa: Cinthia Abreu