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segunda-feira 11 dezembro 2017
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A arte como representação de um tempo: uma crônica sobre a era e o filme ‘Aquarius’

por Carol dos Anjos

“Expectativa gera frustração”, diz a analista, o cartaz gnóstico e meus amigos mais espiritualizados, mas, desatenta e desacreditando em frustrações pensei “sábado chuvoso: vou ao cinema”. Feliz em ver o movimento do Espaço Cultural, pois, embora esteja no centro da cidade, seja um lugar aconchegante, com amplo estacionamento, várias linhas de ônibus – com pontos próximos, preços populares é, por via de regra, pouco frequentado. Tudo superando a expectativa. Vejo amigos, alguns conhecidos e velhos desconhecidos (coisa rara, na provinciana Palmas).

Expectativa foi ver Aquarius, filme de Kleber Mendonça, que teve sua estreia em Palmas, na última quinta-feira (15), e tem sido como no país – salvaguardadas as proporções –, um sucesso. De fato, tenho que concordar com a crítica, a trilha sonora é fantástica, a sonoplastia que traz o diegético como um ‘Som ao redor’, a fotografia, os cortes, uma edição… A narrativa, a cadência e, sobretudo, atuação que foi maravilhosa. Tem também aquela velha característica dos filmes ditos de “cinema de autor”, que traz um elenco conhecido. Eh, gosto disso. Entretanto, há um incômodo, um comichão, um ‘coiso’. Infelizmente, nesse dia, não fui de bicicleta. Talvez o vento fresco batendo no rosto seria uma agradável companhia, para um flâneur digestivo pós-filme. Demorei-me na digestão, afinal, a obra traz muitos assuntos, os quais se escalonam no desenredar de uma trama… “Tilelê” (?). Não sei… Falta-me vocabulário e nada tão tilelê como usar a palavra tilelê, metalinguaguem.

Imediatamente, ao sair do cinema, lembrei de Macunaína, ‘me sorri’ e disse: “Aí que preguiça’, como a classe média sofre!”. Por outo lado ao tomar a arte como representação de um tempo, Aquarius é um filme de Aquarius, ou melhor, quase-aquarius, pois, apresenta diversas questões, não as discute, não evolui. Tudo é imagem, “verdades editadas”, para citar Silvio Tendler, tudo é porvir… Apresenta, não representa nem discute. Mostra, mas, em cortes rápidos, como os da guerra no noticiário televisivo, seguido de outro corte rápido para praia de Boa Viagem. E que viagem!

Sobre representação tento digerir a retratação dos meninos negros, aqueles que foram acolhidos, constrangedoramente, acolhidos pelos brancos, que sob o sol de Boa Viagem, riam: Rá, rá, rá! Afinal, a classe média branca é acolhedora (né?), sobretudo, se ralou muito para estar ali a sorrir. É aquela classe que passou pela instituição educação, mas, ainda não foi ao EUA, como o especulador e engenheiro Diego (Humberto Carrão). É quem sofre com especulação das grandes construtoras, mas, que tem cinco apartamentos, no Recife. É a classe que sabe transpor o cano de esgoto e chegar ao lado pobre, mas, só para um rápido churrasquinho, na laje da casa da empregada. Isso, empregada. Aquela classe de gente que é ‘explorada,’ mas, que depois ‘os roubam’… ‘a vida segue’.

A classe média envelhece, tem desejos sexuais, vence câncer e até tem filho bicha. Mas, uma bicha branca, que não dá pinta e que tem namorado, não é bicha pervertida. O namorado é outro branco, que não dá pinta e que frequenta lugar de ‘bicha rica, mona’. Ainda sem digestão, talvez assista novamente, no próximo sábado… Por ora penso apenas no hermano peruano, José Carlos Mariátegui: “A burguesia quer do artista uma arte que corteje e adule seu gosto medíocre. Quer, em todo caso, uma arte consagrada por seus peritos e taxadores”.