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terça-feira 12 dezembro 2017
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A beleza está em ser torto

Lauane dos Santos

A intenção era ouvir música mas, na verdade, eu vi arte. Vi a composição se transformando em teatro e os movimentos se transformando em música no espetáculo cênico-musical “Este Breve e Belo Sonho Torto”, de Heitor Oliveira, produzido pelo Fluxo Criativo e apresentado neste último fim de semana, 26 e 27, no Sesc. Com a intenção de responder o que performance musical tem de teatral, os artistas se tornam atores da própria composição, pela forma de pegar o instrumento, de sentar, de tirar os sapatos e tudo mais que pudesse deixá-los confortáveis, para que, assim, causassem o desconforto maior na plateia participante.

Desconfortável foi a palavra usada por um dos espectadores ao descrever a performance. Isso devido, talvez, ao fato de não estarmos acostumados a ver e ouvir algo que está fora do ritmo conhecido e aclamado. Desconforto também de participar de um ensaio que não foi ensaiado pelos telespectadores, os quais, na hora, precisaram falar, ver e ouvir ao mesmo passo, observando qual era o ritmo do parceiro ao lado e se adequando, juntos, a uma composição que precisou deixar de lado o individual para se unir ao fluído mais compassado e forte: o coletivo.

Os artistas, que ora pareciam compositores daquele momento sem programação alguma, ora se assemelhavam muito a atores que encontram nos detalhes o grande significado da performance. Isso foi o mais impressionante. A percepção da necessidade de se inventar e reinventar.

Aprender o que já parecia ter sido aprendido, reinventar o já inventado e consolidado, talvez seja muito mais difícil que simplesmente aprender a inventar. Aos poucos, de modo bem compassado para que toda a plateia pudesse se dar atenção a (quase) todos os passos e compassos, os compositores, mais que inventar a própria composição, reinventaram o modo de compor. Compor, inclusive, disposição dos artistas que precisaram reaprender a tocar sozinhos o que se transformaria num conjunto. Precisaram entender que o espaço é de todos e a composição sozinha talvez não seja tão composta assim.

Composição essa que já havia sido escrita pelas mãos, não de um intérprete, mas de um compositor de palavras. Os artistas reinventaram o modo de proclamar o poema de Paulo Ayres Marinho que deu nome ao espetáculo. Seria este realmente um breve e belo sonho torto? Aliás, perguntou novamente outro astuto compositor de perguntas da plateia: “se é belo, como pode ser torto?”.

Certamente a resposta veio com um espetáculo cheio de notas muito bem programadas, tanto quanto as muitas palavras repetidas nesse texto. Repetições que foram cuidadosamente planejadas de palavras que foram cuidadosamente pensadas e transformadas em chave, para que, após um tempo, se tornarem notas que recompuseram o visto em lido. Notas também que estavam nos movimentos. Movimento de pegar a partitura. Movimento de pegar, com muito cuidado, a partitura. Movimento de tirar o casaco, sentar, levantar, tirar os sapatos. Ou melhor, tirar os ruídos dos sapatos. Recompor os ruídos com os sons ao longe. Sons de letras. De Sílabas. Sílabas de que? De composição. De recomposição. De outras sílabas que formavam um poema. Que poema? Um poema escrito, falado, gritado, cantado, tocado que chamavam de Breve e Belo Sonho Torto. Sonho de compor beleza. Beleza que havia em ser um sonho torto.