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quarta-feira 22 novembro 2017
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Tá legal, eu aceito o argumento, mas não me altere o samba tanto assim

Dairo Santos

Esse trecho tirado do Samba “Argumento” de Paulinho da Viola em 1975, falava sobre a descaracterização do Samba em relação ao ritmo e a sua instrumentação.

Olha que naquela época o problema era a BOSSA NOVA que sempre se reconheceu como uma vertente do samba e não como samba em si; e com o piano de Benito de Paula em “Retalhos de Cetim” lançada dois anos antes de Argumento.

Não estou querendo aqui retomar velhas discussões de grandes compositores que já gravaram seu nome na história; E sim parar para refletir e discutir a preocupação que se tinha em não se alterar esse estilo musical que já é considerado um patrimônio do Brasil.

Bom permita me apresentar, meu nome é Dairo Santos, sou um brasiliense que está no Tocantins desde 2004 vago no mundo da arte desde 1982 em meio a teatro, cinema e música.

Como sambista já fiz alguns shows com o Grupo Vassunce quem tenho o prazer de trabalhar no projeto “TRIBUTOS” Chico, Cartola, Noel, Gonzaguinha e outros,

Ultimamente tenho participado mais como espectador das noites e dias de samba na cidade, tendo assim uma outra visão do se anda fazendo com o Samba aqui.

E essa frase da música do Paulinho anda me perseguindo em cada show, apresentação ou roda de samba.

Me perdoem os mais modernos mais ultimamente tenho experimentado uma total ausência do samba de fundamento, do samba feito no nascer do samba, (se é que me entendem.) é claro que a alegria, o contagiar o público e o dançar contam muito ponto e quanto mais animado estão os ouvintes mais se quer contagiar, porém, o crescer nem sempre é sinônimo de melhorar, e é isso que no meu ponto de vista está acontecendo hoje em dia, o ânimo, contágio, a euforia está transformando a cozinha em uma batucada indefinida e cheia de swing que deixa tudo com cara de festa de vários ritmos misturados,  não há diferença entre uma música e outra, não existe mais as particularidades de cada samba, existe uma cadeia de 4 por 4 com os cantores se matando pra manter a voz no ritmo alucinado e sem cadência da percussão misturada onde cada um faz o que quer e rezemos pra dar certo.

Trabalhando com o Junior 07 Cordas nesses projetos acima citados nós tivemos o privilégio de estudar cada cantor na essência e atingir um grau de conhecimento que foi impagável, cada música, cada história, cada compasso, cada sensação de: “olha isso aqui cara!!!” Nos dava uma dimensão maior e maior do que é reproduzir samba!

E definitivamente dentro das 4 ou 5 horas de samba em uma apresentação básica seja no ambiente que seja! Tem de haver um espaço exclusivo pra se manifestar a cultura do samba raiz com o seus perfis bastante diferenciados.

O show mais singelo (na minha humilde opinião) que fizemos foi Noel Rosa, um Violão, uma Flauta e um Pandeiro.

O show mais animado foi Chico com uma banda perfeita!

O mais esperado foi Cartola!

E o mais difícil foi Gonzaguinha!

Porém quando associamos todos a um show só e misturamos tudo, a resposta não foi a mesma de quando separados. Isso claramente define que a essência de cada um deve ser respeitada pois a mistura nem sempre nos dá condições de manter suas singularidades, não dá pra focar em grandes nomes todos de uma vez.

O Povo quer sambar e quer conhecer o samba e nossa obrigação é proporcionar isso, e não ensinar a qualquer custo que o samba é bom!

Ninguém ira ensinar nada a ninguém, proporcionemos o samba com qualidade e história e as pessoas vão aprender sozinhas o caminho percorrido até a batucada de hoje.

Acho que a palavra de ordem nessa história é deixar um momento único a cada apresentação do respeito que se tem as obras na sua essência a aos seus criadores, conter a euforia da cozinha para se deixar soar a máxima da união entre a voz, a música e a percussão, e isso só será elevado ao conjunto da obra com cada um respeitando o espaço de cada som.

Meus amigos sambistas que me desculpem, mas a aurora do samba está sendo esquecida, não se diferencia Noel de Exaltasamba, ás vezes até se esquece Cartola para deixar um Tiaguinho, não que esses segundos não mereçam respeito, e sim que esses primeiros merecem mais respeito ainda.

A História do Samba não pode ser cantada sem seus grandes nomes, isso é um desrespeito a tradição, aos mentores dessa história.

Está na Natureza do Sambista ser um “MOLEQUE ATREVIDO”, mas não merece respeito que não sabe ter “RESPEITO A QUEM PODE CHEGAR ONDE ELES CHEGARAM”

“NÃO DEIXEM O SAMBA MORRER!”