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sábado 18 novembro 2017
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MinC e IPHAN: Missão Artística Francesa no Brasil completa 200 anos.

Um dos marcos do desenvolvimento das artes no Brasil, a Missão Artística Francesa, que aportou nos trópicos em 25 de março de 1816, completa este ano seu bicentenário. Seu principal objetivo era dar início ao ensino regular das artes no Brasil, acompanhando o surgimento de diversas instituições públicas que se estabeleceram com a vinda de Dom João VI e da Família Real Portuguesa para a colônia em 1808, como, por exemplo, a Biblioteca Nacional.
Após a criação do Reino Unido de Portugal e Algarves, Dom João VI e seu ministro Antonio de Araujo Azevedo, conhecido como Conde da Barca, tiveram a preocupação de instituir a educação formal, que após a expulsão dos jesuítas, responsáveis pelo sistema educativo no Novo Mundo, ainda no primeiro período da colonização, tinha ficado negligenciada. Dessa maneira, articularam a vinda do grupo ao Brasil para empreender o projeto de institucionalização do ensino da arte.
“Naquela época, éramos sede do Reino Unido de Portugal e Algarves. Com os portos, se abriram também – e irresistivelmente – os espíritos e as ambições da gente da terra movidos pelo vento da mudança”, relata o embaixador Marcos Castrioto de Azambuja, membro do Conselho Consultivo do Patrimônio Cultural do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan).
Tais ventos que trouxeram os franceses estavam acompanhados pelo espírito das luzes, ou seja, pelas ideias iluministas que se libertavam dos dogmas da Igreja Católica e substituíam o pensamento filosófico pelo saber acadêmico e científico. Foi nesse contexto que a Missão se instituiu, chefiada por Joachim Le Breton e tendo como principais representantes os pintores Jean Baptiste Debret e Nicolas Antoine Taunay; os escultores Auguste Marie Taunay, Marc Ferrez e Zépherin Ferrez; e o arquiteto Grandjean de Montigny.
A presença desses artistas vai além de influências estéticas. Estava imersa em um contexto histórico em que se pretendia modernizar a nova sede do reino. Ao se estabelecerem, criaram as estruturas necessárias para o ensino acadêmico no Brasil e inauguraram a Academia Imperial de Belas-Artes, em 1826.
A partir de então, o estilo que imperou nas artes e na arquitetura é o neoclássico, seguindo uma tendência mundial, implantada, no Brasil, pela Missão, como estilo oficial da Corte portuguesa, embora de filiação eminentemente francesa. Essa vertente estilística recebeu, posteriormente, críticas negativas. Os modernistas que criaram o Iphan, por exemplo, e que estabeleceram fortes vínculos entre o passado colonial e a modernidade, eram defensores de que a inserção do neoclássico teria rompido o processo de construção de uma arte brasileira “genuína”.
Pedro Martins Caldas Xexéo, museólogo e conservador do Museu Nacional de Belas Artes, ressalta que “um argumento clássico contrário à influência dos artistas franceses e seus imediatos seguidores brasileiros é que o desenvolvimento natural da arte brasileira dentro dos princípios formais do Barroco foi interrompido abruptamente por uma proposta formal alienígena que impedia a continuidade da trajetória natural de nossa arte”.  Os estilos Barroco e Rococó se encontravam esgotados, segundo Xexéo, e sem representantes de vulto naquele momento.  Além do que o neoclássico teria se estabelecido de qualquer sorte, dado a vinda da Corte, de sua difusão por toda Europa Ocidental e por representar uma nova ideia de sofisticação pela elite.
A Missão Francesa representou, portanto, a profissionalização artística, formando uma geração de pintores e arquitetos. Além disso, deixou um acervo que registrou tipos humanos e cenas do cotidiano do Brasil colônia. Sem as gravuras de Debret, por exemplo, seria escasso o conhecimento sobre as primeiras décadas do século XIX, no Brasil, em seus aspectos sociais, etnográficos e das paisagens urbanas e rurais. Ao retratar hábitos, vestuários, danças, costumes, celebrações, ele torna-se um artista a serviço do registro histórico. Segundo o escritor Antônio Carlos Villaça, autor do ensaio “Debret, um itinerário de amor”, em sua obra, há um “cheiro de povo”.

Principais artistas:

Joachim Le Breton (1760-1819) 

Conhecido como o chefe da Missão Artística Francesa, foi secretário perpétuo da Classe de Belas-Artes do Instituto da França e um intelectual muito respeitado, que trouxe além de seus conhecimentos um acervo de obras ainda não visto no Brasil. Foi o primeiro a se empenhar na missão de institucionalizar o ensino das artes no País. Morreu na cidade do Rio de Janeiro.
 Jean Baptiste Debret (1768-1848) 

Pintor e desenhista, Debret foi um dos principais personagens da Missão, deixando um amplo registro sobre os costumes e a paisagem brasileira. Frequentou a Academia de Belas Artes na França, na qual foi aluno do pintor Jacques-Louis David, o principal nome do neoclassicismo francês. Atuou como professor de pintura histórica na Academia Imperial de Belas Artes no Brasil, entre 1826 e 1831. No ano de 1829, promoveu a Exposição da Classe de Pintura Histórica da Imperial Academia das Belas Artes, que se tornou a primeira mostra pública em território nacional. Retornou à França, em 1831, e editou o livro Viagem Pitoresca e Histórica ao Brasil, em três volumes.
 Nicolas Antoine Taunay (1755-1830) 

Foi, assim como Debret, um importante pintor e ilustrador. Registrou alguns momentos da campanha de Napoleão Bonaparte. Com o fim do império napoleônico, veio ao Brasil com a Missão Francesa em 1816. Atuou como professor de pintura de paisagem na Academia Imperial de Belas Artes. Por divergências com a administração da Academia, retornou à França em 1821.
Auguste Henry Victor Grandjean de Montigny (1776-1850) 

Arquiteto e urbanista, formou-se pela École d’Architetucture [Escola de Arquitetura] de Paris. Foi um profissional influente no império napoleônico. Com a derrocada de Napoleão, Grandjean de Montigny aceitou o convite para integrar o grupo de franceses que viriam ao Brasil. Atuou na Academia Imperial como professor de arquitetura. Permaneceu no País até sua morte e deixou como obras, na cidade do Rio de Janeiro, o edifício da Praça do Comércio, atual Casa França Brasil; o Solar Grandjean de Montigny, no bairro da Gávea; e a Academia Imperial de Belas Artes, da qual só permaneceu o portal, hoje instalado no Jardim Botânico, na cidade do Rio de Janeiro.
Fonte:
Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional
Ministério da Cultura