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sexta-feira 22 junho 2018
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Carolina de Jesus – a escritora que o brasileiro não conhece!

“Eu denomino que a favela é o quarto de despejo de uma cidade. Nós, os pobres, somos os trastes velhos.” – Carolina de Jesus.

Na minha opinião uma das mais interessantes escritoras do Brasil. Negra, favelada, mãe solteira, alfabetizada – apenas na escrita e na leitura e de forma precária – visto que, frequentou apenas os anos iniciais do ensino fundamental. Sua obra além do literário, tem um grande valor antropológico e sociológico e nos leva a entender o dia-a-dia das primeiras favelas da cidade de São Paulo e de seus moradores.

Carolina de Jesus ainda não tem o reconhecimento e respeito que merece dos brasileiros, bem como dos pesquisadores de vasta área de estudo, posto que ela versa em suas obras de teologia a economia, passando pela antropologia e sociologia, entre outros vários temas. Ler Carolina é entender uma época importante de nosso país, bem como o crescimento dos bolsões de miséria que perduram até dias atuais.

E o que explica o o não conhecimento dos brasileiros sobre a obra da escritora? Infelizmente o mercado editorial brasileiro, bem como, entidades educacionais e de literatos deixaram as obras da escritora de lado. Um esquecimento e silêncio que não tem sentido por tamanho valor de seus escritos. Que mais curiosos, como eu, encontrem essa maravilha brasileira.

Abaixo lhes apresento um pouco mais da vida de meu xodó literário nacional – a grande Carolina Maria de Jesus.

Sobre a Vida da escritora:

Carolina Maria de Jesus nasceu em Sacramento – Minas Gerais, numa comunidade rural onde seus pais eram meeiros. Filha ilegítima de um homem casado, foi tratada como pária durante toda a infância, e sua personalidade agressiva (acredito ser impulsiva e com senso de justiça, o que explicaria sua pouca formação diante de vasta inteligencia e sensibilidade na escrita) contribuiu para os momentos difíceis pelos quais passou.

Aos sete anos, a mãe da escritora forçou-a a frequentar a escola depois que a esposa de um rico fazendeiro decidiu pagar os estudos dela e de outras crianças pobres da localidade onde vivia. Carolina, obedeceu, porém sua impulsividade a fez interromper os estudos no segundo ano do ensino fundamental, mas aprendeu a ler e a escrever, o que foi suficiente para deixar uma ampla obra, pouco conhecida dentre os brasileiros.

A mãe de escritora tinha dois filhos ilegítimos, o que ocasionou sua expulsão da Igreja Católica quando ainda era jovem. Contudo, como a fé reside dentro de nós, em nossos corações, visto que somos a morada dela, a escritora, ao longo da vida, foi uma católica devota e fervorosa, mesmo nunca tendo sido readmitida pela Instituição. Em seus escritos, Carolina faz referências religiosas em muitas passagens, referencias fortes e até comoventes.

Em 1937, com a morte de sua mãe, Carolina se viu impelida a migrar para a metrópole de São Paulo. Carolina construiu sua própria casa, usando madeira, lata, papelão e qualquer coisa que pudesse encontrar. Ela saía todas as noites para coletar papel, a fim de conseguir dinheiro para sustentar a família. Quando encontrava revistas e cadernos antigos, guardava-os para escrever em suas folhas.

Começou a escrever sobre seu dia-a-dia, sobre como era morar na favela e o fato aborrecia seus vizinhos, posto que não eram alfabetizados fazendo-os se sentirem desconfortáveis por vê-la sempre escrevendo, e sobretudo por te-los como fonte de inspiração e objeto de pesquisa.

A escritora teve vários envolvimentos amorosos quando jovem, mas não casou-se, por presenciar casos de violência doméstica ao seu redor, entre os seus, o que a deixava desconfortável e até mesmo revoltada. Preferiu permanecer solteira. Teve três filhos de pais diferentes, sendo um deles um homem rico e branco.

Em sua obra, através de seus diários, ela detalha o cotidiano dos moradores da favela e, sem rodeios, descreve os fatos políticos e sociais que via, e vivenciava. Ela escreve sobre como a pobreza e o desespero podem levar pessoas boas a trair seus princípios éticos e morais simplesmente para assim conseguir comida para si e suas famílias.

Carolina jamais se resignou às condições impostas pela classe social a qual pertencia. Em uma vizinhança com alto nível de analfabetismo, saber escrever era uma conquista excepcional. A autora descrevia a si mesma como alguém muito diferente dos outros favelados, e afirmava “que detestava os demais negros da sua classe social” por tudo que presenciava, e em especial ao ver muitas pessoas do seu círculo social sucumbirem às drogas, álcool, prostituição, violência e roubo.

Carolina lutou para se manter fiel à escrita, e aos filhos, a quem sustentava vendendo lixo reciclável e com as latas de comida e roupa que encontrava no lixo. Parte do papel que recolhia era guardado para poder continuar escrevendo.

Carolina Maria de Jesus tinha 43 anos quando foi descoberta pelo jornalista Audálio Dantas, em 1958, na favela do Canindé, Zona Norte de São Paulo.

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                  Carolina de Jesus, Audálio Dantas e Ruth Souza.

Sobre sua obra:

Publicou seu grande sucesso “Quarto de Despejo em 1960”. Após escreveu e publicou alguns livros, porém sem muito sucesso. Seu auge e decadência como figura pública foram rápidos, possivelmente devido à sua personalidade forte, que a afastava de muita gente, além é óbvio da drástica mudança no panorama político brasileiro, a partir do golpe de estado em 1964, que marginalizaria qualquer manifestação popular, entre as quais obras tão realista quanto as da escritora.

Carolina de Jesus também escreveu poemas, histórias curtas, e diários breves, embora estes nunca tenham sido publicados.

Seu livro “Quarto de Despejo” foi amplamente lido, tanto na Europa ocidental capitalista e nos Estados Unidos, como nos países do bloco socialista, o chamado bloco oriental e Cuba; o que denota público abrangente de fora do Brasil tocado por sua história.

Para o ocidente liberal e capitalista, seu primeiro livro retratava um sistema cruel e corrupto reforçado durante séculos por ideais colonizadores presentes nas dinâmicas sociais da população. Já para os leitores comunistas, suas histórias representavam perfeitamente as falhas do sistema capitalista no qual o trabalhador é a parte mais oprimida do sistema econômico, por isso a insistência desse escritor em afirmar o valor antropológico, sociológico e até econômico da obra da escritora.

Obras publicadas em vida:

  • Quarto de despejo – 1960
  • Casa de Alvenaria – 1961
  • Pedaços de Fome – 1963
  • Provérbios – 1963

Obras Póstumas:

  • Diário de Bitita – 1986
  • Meu estranho diário – 1996
  • Antologia Pessoal – 1996
  • Onde estaes felicidade – 1977 e 2014.

 

                         Carolina de Jesus e Clarice Lispector.

Sobre a escritora como objeto de pesquisa:

A pesquisadora Raffaella Fernandez trabalha na organização do material inédito deixado por Carolina de Jesus em 58 cadernos que somam 5.000 páginas de texto. São sete romances, 60 textos curtos e 100 poemas, além de quatro peças de teatro e de 12 letras para marchas de Carnaval.

Em 2014, como resultado do “Projeto Vida por Escrito” – Organização, classificação e preparação do inventário do arquivo de Carolina Maria de Jesus, contemplado com o Prêmio Funarte de Arte Negra, foi lançado o Portal Biobibliográfico de Carolina Maria de Jesus (www.vidaporescrito.com) e, em 2015, foi lançado o livro Vida por Escrito – Guia do Acervo de Carolina Maria de Jesus, organizado por Sergio Barcellos.

O projeto mapeou todo o material da escritora que se encontra custodiado por diversas instituições, dentre elas: Biblioteca Nacional, Instituto Moreira Salles, Museu Afro Brasil, Arquivo Público Municipal de Sacramento e Acervo de Escritores Mineiros (UFMG).

A escritora foi representada pela grande atriz Ruth de Souza na peça “Quarto de Despejo” – 1961, no Teatro Bela Vista em São Paulo. Por isso da recorrência de fotos da escritora com a atriz.

Por tudo isso Carolina Maria de Jesus é uma artista rica que merece ser pesquisada, publicada e cultuada como grande escritora, letrista, poeta, antropóloga, socióloga (sem títulos, óbvio) que foi e é em dias atuais.

Sobre a Fonte principal de pesquisa: 

Grande Parte das informações para este texto-homenagem foram retiradas do site – Geledes –  onde pode-se verificar várias entrevistas sobre a escritora, bem como, ouvi-la cantando entre outras coisas. Para ter acesso a essa riqueza de informações basta acessar o link abaixo:

http://arquivo.geledes.org.br/patrimonio-cultural/literario-cientifico/literatura/23990-centenario-de-carolina-maria-de-jesus

Além do site supracitado há um vasto material sobre a escritora em portal lhe dedicado e explicado acima: www.vidaporescrito.com