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segunda-feira 24 setembro 2018
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“Trumbo: Lista Negra” – o filme não indicado ao Oscar. Por quê?

Todos os anos há especulações de o porquê de um filme não ser indicado ao Oscar. Realmente é uma pergunta rotineira e corriqueira, afinal temos nossas preferências. No entanto, 2015 foi um ano atípico para o cinema, visto que a sétima arte se superou na quantidade de filmes com extrema  qualidade, o que fez a Academia, acredito eu, ter uma grande dificuldade na escolha dos indicados em várias categorias e não somente na de melhor filme.

Percebo sempre, em minha concepção, que a Academia usa alguns critérios na indicação. É extremamente raro dois filmes com a mesma temática ser indicado e é aí que “Trumbo” se encaixa, infelizmente, pois merecia sim o reconhecimento de uma das indicações na categoria melhor filme, entre outras.

Explico-me, “Trumbo: Lista Negra” tem seu tema central ambientado no período da Guerra Fria, acontecimentos posteriores a Segunda Guerra Mundial, e para o azar dele e nossa sorte, há outro representante deste tema, o tão bom quanto: “Ponte dos Espiões” de Steven Spielberg, que foi o indicado na categoria de melhor filme.

                         

Mas porque a preferência por um em detrimento do outro, devem estar perguntando? Seria simples escolha?

Bem, acredito que não. O filme de Spielberg “Ponte dos Espiões” é uma bela obra, baseado em fatos reais, assim como “Trumbo”, que traz um formato de história já conhecida e muitas vezes contadas: conflitos da Guerra Fria, Espiões e Negociações. Não aponta o dedo a ninguém. Fala realmente de como foram os acontecimentos e de como eram os interesses das Agências de Inteligência dos EUA e URSS naqueles anos. Nenhuma novidade, além da história interessante, que te leva depois a pesquisar sobre as personagens. Já “Trumbo” traz o dedo apontado exatamente para a Academia de Cinema que faz a indicação ao Oscar, num episódio que dizem estar superado mas que na realidade não está.  Foi quando o cinema que deveria ser a voz da liberdade, da igualdade, não o foi. Foi a época da caça as Bruxas entre os declaradamente comunistas nos EUA e a sétima arte como um todo não saiu ilesa desse episódio.

“Trumbo” (no filme interpretado pelo Maravilhoso Bryan Cranston) conta a história de um dos maiores roteiristas do cinema mundial, James Dalton Trumbo, comunista, que durante a Segunda Guerra Mundial, quando EUA e URSS agiam conjuntamente, porém não com os mesmos interesses, seguia seu trabalho e recebia o reconhecimento no meio ao qual pertencia, mesmo sendo filiado ao Partido Comunista dos EUA.

 Porém após o termino da Guerra, a separação do mundo em dois polos, dando inicio a Guerra Fria, assim como muitos comunistas daquele país, Trumbo foi “caçado”. A Lista Negra (ao lado foto dos 10 e suas famílias em protesto) mencionada no título do texto é como ficou conhecida a listagem com o nome de 10 roteiristas e diretores de Hollywood que tinham ligação direta com o Comunismo nos EUA, sendo que alguns ainda eram filiados ao partido comunista e outros fora em um passado não distante. Foi uma época em que o cinema americano e consequentemente mundial, perdeu muito em qualidade de roteiros e direção. O filme enfatiza muito essa parte.  Em 1947, Trumbo e outros nove diretores e roteiristas, foram chamados para depor na comissão parlamentar de inquérito da Câmara dos Representantes dos Estados Unidos, formada para averiguar a suposta infiltração de comunistas na indústria de cinema e presidida pelo senador Joseph McCarthy. Trumbo se recusou a delatar quem eram os comunistas de Hollywood na comissão  e ainda acusou os Congressistas de cerceamento de liberdade e tratamento desigual em um país que prega a liberdade e a igualdade entre outros valores. Resultado: foi condenado e passou 11 meses em uma uma prisão federal no Kentucky.

                           
No entanto, o talentoso escritor, que perdeu muito de seus bens durante essa época (entre eles seu sitio, onde vivia com a família), voltou a escrever de forma clandestina, disponibilizando roteiros de sua autoria, porém sem sua assinatura. Entre vários roteiros elogiados, dois foram premiados com o Oscar: “A princesa e o Plebeu” (eternizado por Audrey Hepburn que recebeu o Oscar de Melhor Atriz) de 1953 e “Arenas Sangrentas” (The Brave One) de 1956 (Que tinha no elenco o Inglês Michel Ray, filho de pai brasileiro), ambos creditados a outros roteiristas. No primeiro filme o crédito ficou para Ian McLellan Hunter, que amigo de Trumbo ofereceu-se para assinar. Ian recebeu o prêmio, porém o entregou para o criador. Quanto ao segundo filme os créditos foram para o pseudônimo de “Robert Rich” sobrinho de um dos produtores. Logo esta foi a primeira vez que um prêmio Oscar não foi reclamado, pois Rich não existia de fato como roteirista.

                            

Já em 1960 com o apoio do diretor Otto Preminger, Trumbo recebeu crédito pelo filme “Exodus”. Logo em seguida, Kirk Douglas tornou público que Trumbo escreveu o roteiro de “Spartacus” (O Clássico de 1960) com direção do maravilhoso Stanley Kubrick, que recebeu 6 indicações ao Oscar, vencendo em 4 categorias (Roteiro Adaptado de Trumbo não foi indicado).  Estes dois fatos marcavam o início do fim da lista negra para o roteirista e diretores. Trumbo foi reintegrado ao Writers Guild of America – West, o sindicato dos roteiristas de Hollywood, e passou a ser creditado em todos os roteiros seguintes que escreveu.

Em 1975, Trumbo recebeu o Oscar pelo filme “Arenas Sangrentas” (1956) na Categoria (Atualmente Roteiro Original) melhor história original. Em 1993 ele recebeu postumamente seu prêmio Oscar, na mesma categoria anterior, pelo filme A “Princesa e o Plebeu” (Oscar de 1953).

Logo, pela demora da Academia reconhecer erros do passado e realmente premiar o excelente roteirista nos dois filmes mencionados, e em especial pelo filme “A Princesa e o Plebeu”, cujo o reconhecimento foi póstumo, nota-se que o fato histórico ainda causa arrepios na academia e que a mesma ainda não o superou.

Vamos aos destaques de interpretação:

Meu primeiro destaque sem dúvidas é para a interpretação de Bryan Cranston no papel título. O ator está excelente. É visível sua entrega a personagem. Com várias cenas ótimas, como as gravada dentro da banheira, onde Trumbo gostava de escrever. Seja em seus embates com Hedda Hopper (Helen Mirren) ou o despertar para o que realmente sua filha Nikola estava sentindo, Cranston esbanja seu talento. Prova disso é sua indicação muito merecida ao Oscar de melhor ator. Bryan aproxima-se muito do próprio Trumbo em muitas cenas e deve muito aos colegas que estão no elenco.

Meu segundo destaque entre as interpretações, que também ficou ausente entre os indicados (neste caso em Atriz Coadjuvante) é a Grande Helen Mirren no papel da irritante (realmente nos causa raiva) Hedda Hopper (atriz) que era uma ferrenha “caçadora” de comunistas na industria do cinema. Há momentos que minha vontade era falar: Cale-se! Você é extremamente louca. Helen causou em mim os piores sentimentos que posso ter sobre uma pessoa. Destaque para a expressão de Helen na cena em que o Presidente dos EUA, Kennedy, sai de uma sessão de Spartacus. Sou suspeito pra falar sobre sua interpretação porque Helen é uma de minhas paixões no cinema.

Meu terceiro destaque é para Diane Lane que interpreta de maneira vigorosa a esposa de Trumbo, Cleo Beth Fincher. Diane traz uma vivacidade e uma perseverança imensa para a personagem. Paciência e amor, acredito eu, seriam as maiores características da esposa de Trumbo se o roteiro condizer realmente com Cleo Fincher. Diane mostra toda a compreensão e cumplicidade de uma esposa extremamente companheira que muitas vezes chamava Trumbo a realidade e ao mesmo tempo o dava todo tempo necessário para suas criações, para brigar com seus fantasmas, para se encontrar e achar o tom correto de seus roteiros. Diane está fantástica.

O quarto destaque vai para Elle Fanning que interpreta de maneira realmente convincente Nikola Trumbo, filha do escritor, que na infância e antes de toda a situação da lista negra era muito ligada ao pai. Porém após a lista negra e a batalha de Trumbo para continuar a escrever a relação muda. Destaque para a cena em que a personagem se sente totalmente preterida e transborda o que esta sentido para o pai, que nesta altura está obcecado em escrever compulsivamente para manter a família, bem como sua profissão, mesmo sob pseudônimos. Todo o conflito da adolescente Nikola é maravilhosamente retratado por esta jovem atriz que é promessa do cinema mundial.

Realmente “Trumbo: lista Negra” foi um filme desvalorizado pela Academia do Oscar, muito desprestigiado em várias categorias (recebeu apenas uma indicação ao Oscar – Melhor ator), talvez porque a academia quis realmente ignorar, ou talvez porque essa edição realmente foi muito rica em boas produções. Na minha opinião, o filme merecia ser lembrado, além da Categoria de Melhor Ator, nas categorias: Melhor Filme, Atriz Coadjuvante, Roteiro Adaptado, Direção de Arte e Figurino, no minimo. Meu grande respeito à todos que não foram indicados por essa excelente obra do cinema mundial.

         

Sobre James Dalton Trumbo:

Trumbo nasceu em Montrose, Colorado – EUA, em 09 de dezembro de 1905. Faleceu em Los Angeles, Califórnia – EUA em 10 de setembro de 1976. Foi um extraordinário roteirista e romancista dos EUA, e membro do Hollywood Ten, um grupo de profissionais da industria cinematográfica, que se recusou a testemunhar perante uma Comissão Parlamentar de Inquérito  montada em 1947  pela Câmara dos Representantes dos Estados Unidos, para averiguar a suposta infiltração de comunistas na indústria de cinema. Foi casado com Cleo Beth Fincher de 1938 até sua morte em 1976. Pai de 3 filhos: Christopher Trumbo, Mitzi Trumbo e Nikola Trumbo.