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segunda-feira 17 dezembro 2018
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“Ponte dos Espiões”: o “aulão” sobre Guerra Fria do Oscar 2016.

A obra “Ponte dos Espiões” é o mais novo trabalho da dupla Tom Hanks e Steven Spielberg (antes já fizeram “O Resgate do Soldado Ryan”, “Prenda-me Se For Capaz” e “O Terminal”) e conta a incrível história de um norte-americano, quase desconhecido, que teve seus serviços solicitados até pelo presidente Kennedy para intermediar negociações políticas anos mais tardes dos acontecimentos pelos quais passa no Longa.

A história tem semelhanças com várias que conhecemos sobre a relação dos EUA e URSS na época da Guerra Fria. Porém, no caso especifico é baseada em fatos reais, o que por si só já é de grande importância para entendermos as relações das duas grandes potências mundiais no período supracitado, bem como obter conhecimento mais detalhado destas relações, posto que o filme nos leva a querer saber mais sobre as personagens, nos levando a um mergulho na vida de James Donovan que se revela muito rico para os amantes da história e em especial os deste período específico. Posto que, anos após a passagem do filme, como comentado anteriormente Donovan foi chamado pelo presidente dos EUA, Kennedy, para negociar com Fidel Castro o episódio sobre a Baía dos Porcos em Cuba. Outro interesse surgido com o filme é a vida do piloto resgatado Francis Gary Powers e do estudante de economia Frederic Pryor.


Como já mencionado acima, a maior contribuição do filme “Ponte dos Espiões” é o mérito de ser um grande “aulão” sobre história mundial e relações no período da Guerra Fria. Logo, a obra e pode (e deve), servir na exibição de professores aos seus alunos, gerando debates sobre todo o contexto desta época marcante da história mundial. Durante as mais de 2 horas de filme assistimos a uma história muito bem elaborada, cheia de explicações pormenorizadas sobre a situação política mundial da época. Logo “Ponte dos Espiões” na minha opinião é um filme que precisa cruzar a porta de entrada das escolas mundo a fora, visto que o filme introduz, progressivamente, noções complexas como a soberania nacional e a crise do patriotismo, além de um panorama maravilhoso sobre relações internacionais, negociação, gestão de conflitos e história pura e genuína. Ponto para Spielberg e os roteiristas.

Voltando ao filme: na trama, acompanhamos detalhadamente a saga heroica do advogado, especialista em seguros, James Donovan (Tom Hanks), um norte-americano cheio de princípios, e dedicado ao trabalho e a  família, que recebe a difícil missão (posto que ele não era especializado em Direito Penal e há tempos não estudava nada sobre a área) de defender nos tribunais um espião russo Rudolf Abel, capturado(que acabou preso e isso não gera surpresa e ninguém posto a época em que se passa a história) na Nova York de 1957.

Porém, como se já não bastasse para tirar o sono da personagem,  defender um russo (diante de um sistema jurídico corrupto – e levando em consideração seus princípios em fazer uma defesa real) e trabalhar em área adversa a sua; no final do processo em questão ele é colocado na linha de frente de uma negociação, em plena Berlim Oriental (na época de sua histórica divisão – onde russos e alemães comunistas não se entendem), que envolve um Piloto norte-americano, Francis Gary Powers (Austin Stowell) que fracassou em sua missão especial de espionagem e foi detido atrás das linhas inimigas, além de um estudante de economia norte-americano, Frederic Pryor (Will Rogers), acusado de espionagem, e seu mais difícil cliente, o espião russo que acabará de defender no tribunal.

Ponto forte do filme é verificar a reação das pessoas, quando da decisão de Donovan em aceitar a defesa do espião. O mesmo era tratado, nas ruas, nos trens, no metro como se fosse um inimigo do povo dos EUA. Extremamente interessante a reação de todos muito bem filmada pelo gênio Spielberg. E em contra partida a isso quando torna-se publica a missão que ele foi  desempenhar na Alemanha Oriental, retomando sua aceitação junto a sociedade.

Outro ponto extremamente forte da trama é uma dupla ironia apresentada: ambos os países fazem questão de repatriar seus conterrâneos, mas desprezam estes homens que foram capturados (ou seja, fracassaram em permanecer invisíveis) e provavelmente entregaram informações confidenciais ao inimigo. Repatriar pelo fato de dizer que negociam, que não deixam os seus. Mas somente por esse fato. E pior ainda no caso do estudante de economia que não estava nos planos de ser repatriado por parte da Inteligencia dos EUA e que só o foi por causa da agilidade e sagacidade de Donovan em negociar. Um ponto a pensar na história do episódio da Guerra Fria que acabou mas que está aos poucos ressurgindo, com EUA e Russia no protagonismo.

Quanto aos Destaques:
Tom Hanks: o que falar desse monstro do cinema? Talvez a maior qualidade de Hanks seja o estudo anterior a cena, o mergulho na história da personagem (Assisti a várias entrevistas de Hanks em que ele diz que quando interpreta personagens reais procura mergulhar em um estudo detalhado da vida desse personagem, inclusive de seu gestual). Outo ponto positivo do ator é a força cênica e sua várias habilidades (em especial no improviso, segundo vários diretores) e isso por si enche a tela do cinema com o mais genuíno talento, da primeira a última cena. Na realidade Donovan a personagem tinha tudo para ser caricato, chato, metódico, no entanto na interpretação de Tom Hanks tornou-se brilhante e carismático, algo que somente um ator vencedor de 2 Oscar´s de Melhor Ator poderia fazer. Longa vida de excelentes filmes a Tom Hanks!

Mark Rylance: destaque total para esse maravilhoso ator inglês, diretor de teatro e dramaturgo. Um artista completo. O ator interpreta o espião russo e que ótima atuação, irretocável, pois se mantém misterioso durante todo o tempo, deixando o público ligado em qualquer dica sobre quais são os seus segredos. Até o ultimo momento, quando continuamos sem saber explicitamente seus segredos e se tudo que apresentou-se sobre ele era realmente verdade. Segredos da Guerra Fria colocados em tona pela interpretação magistral de Rylance, indicado ao Oscar de Melhor Ator Coadjuvante de 2016.

Roteiro: Extremamente competente, muito bem escrito, torna-se louvável o cuidado deste em equilibrar os dois lados da guerra. O protagonista é americano, claro, mas sua principal característica é trabalhar contra a moral vigente no país, ou seja James Donovan recusa-se a dar uma defesa fraca a seu cliente espião, e faz o possível para inocentá-lo, como qualquer advogado deveria fazer. Neste contexto retrata-se para ocasião uma realidade nefasto das altas instancias do direito americano, ou seja o retiro deixa bem claro que a justiça na época, no que tange o inimigo do país (URSS) e seus representantes era parcial e corrupta (a condenação do espião, para eles, é mera formalidade).

Há também o apontamento do roteiro para o povo americano da época, retratado como um grupo de ignorantes sedentos por sangue, que não conseguem ver alguém tentando fazer com que a lei de seu país seja cumprida, isso na maior democracia do planeta. O roteiro consegue a façanha de trazer para época não amistosa o discurso político humanista e ousado. Ao invés de ter um “homem de ação” à frente da trama, algo comum neste tipo de filme (ou seja, sempre um grande integrante da CIA que salva o mundo), o herói neste filme é um defensor dos direitos humanos, bem como da superação dos preconceitos ( e isso fica ainda mais claro quando no resgate o mesmo insiste no resgate do estudante de economia, mesmo contra tudo e todos).

A verdadeira guerra ocorre dentro dos Estados Unidos, entre a maioria vingativa e a minoria capaz de enxergar no inimigo um outro de si mesmo. O roteiro consegue permear o pensamento de ambos os lados, ou seja, pensamentos semelhantes. As vezes sombrio, com leves pitadas de humor (e não poderia deixar de ter em um roteiro com contribuição  dos irmãos Cohen), na realidade o roteiro é extremamente melancólico. O roteiro na realidade é de Matt Chaman e é minha aposta para Roteiro Original, apesar de serem grandes as chances do roteiro de Spotlight – Segredos Revelados de Josh Singer e Tom McCarthy, que realmente é maravilhoso.
Fotografia: a produção oferece uma grande maravilha. A chuva forte em momento de perseguição, as imagens de Berlim Oriental e a neve caindo lentamente, as belas tomadas em salas fechadas da prisão. É extremamente bonita as tomadas, escolhidas a dedo. Bonita também a luz das cenas, branda, amena, criando o clima de melancolia já citado. A obra é resultado da parceria de Spielberg e do diretor de fotografia  Janusz Kaminski, porém não rendeu uma indicação ao Oscar, mesmo caso de Perdido em Marte e Brooklyn.

 

Quanto ao Som:  o trabalho é bem feito, eficaz, porém brando e sem grandes artimanhas. É um trabalho bem feito, mas não para vencer o Oscar apesar de ter sido indicado a Melhor Mixagem de Som.

Ponto alto do filme é a bela trilha sonora, agraciada com a indicação a melhor trilha sonora, mas deve perde para Os oito Odiados (na minha opinião a melhor trilha deste ano – e o que salva o filme de Tarantino do qual não gostei) ou Carol.

Ponte os Espiões foi indicado para  6 Oscar: Melhor Filme, Melhor Ator Coadjuvante, Melhor Roteiro Original (minha aposta para o Oscar), Melhor Mixagem de Som, Melhor Design de Produção (tem chances de ganhar) e Melhor Trilha Sonora.

Outros Indicados ao Oscar de Melhor Filme já comentados pelo site:

O Regresso

O Quarto de Jack

A Grande Aposta

Brooklyn

Mad Max – A estrada da Fúria

Perdido em Marte