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quarta-feira 22 novembro 2017
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O dia em que Cinderela não deixou cair seus sapatos

Já cansada…. Tantos dias dedicados aos afazeres domésticos, ao trabalho, às coisas rotineiras, resolvemos romper o casulo e dar aquela chance para o destino. E para isso há toda uma cerimônia, cabelos, depilação, unhas, maquiagem, o melhor vestido, tudo isso reforça a inconstante autoconfiança delas. E ai de quem indagar o motivo de tanta arrumação, singelamente com um sorriso responderá: “nada, é apenas uma saidinha”. Ao término de se embelezar elas partem para encarar seu destino.

No salão ela caminha cercada por seus fiéis escudeiros, é uma verdadeira guerreira. Difícil para ela sair sem um reforço e tanto esforço já está desencantada, já acredita que a solteirice lhe cai bem. Ainda assim, ela está lá, provando para si mesma que é a última chance dada ao acaso. Ela rodeia, desfila, perambula, mas ela ainda tem a impressão de que ali não é o seu lugar. Até que a música é legal, as pessoas são bacanas, mas tem algo dentro dela que ainda lhe falta. Enquanto conselhos chegam aos seus ouvidos sobre um carinha ali, outro acolá, ela ainda se põe a observar a diversidade humana.

Enquanto isso, nossa Guerreira está no salão e mesmo que a indesejável presença de um sapo ou aquele casinho omitido por força maior surja, ainda assim, ela está confiante. Até se permite a ouvir comentários de que, caso seu ex esteja preocupado em estar com sua alma gêmea ele de fato atingiu seus objetivos, com uma pessoa tão aparentemente diferente de você. Ainda que isso em nada altera as circunstâncias, isso encoraja ela a ser alvo. Ela supera com um largo sorriso todas as confabulações do salão, ela é forte e se ama, coisas do passado não fazem diferença mais. Apesar do seu esforço em não notar, até ela mesma troca piadinhas e chega a assumir que meche com ela ver seu amado nos braços de outra, mas o foco é o futuro, então ela segue e se joga na noite.

E nossa Cinderela, ela está ali a observar de longe as peculiaridades do ambiente, que claro, não se destacariam se todas tivéssemos foco no futuro. A Cinderela está em busca de seu príncipe, ela não está aberta a negociações, ela tem o seu futuro planejado meticulosamente. E ela não se põe à mercê do acaso, ela não se permite ferir o coração novamente, ela sabe que existe um amanhã o qual ela mesma vai se cobrar, ela não sabe como agir mais nesses lugares, é como se ela não coubesse mais nos costumes da sociedade atual, ela está deslocada, e isso sim feri a autoconfiança de uma princesa. Como seria se a Cinderela encontrasse seu príncipe com outra no baile, ou simplesmente não o encontrasse lá? Ninguém a preparou para isso, somos preparadas para que tudo dê certo, ninguém falou que teríamos que ficar solteiras por tanto tempo. Não há um conto com final feliz sobre a solidão. Todas as princesas que conheci se casam e são felizes, apesar de ainda ter muitas dúvidas quanto a essa felicidade, pois não há uma história que reflete o depois do casamento, ainda assim, desejamos o então “feliz para sempre”.

Tudo isso me faz pensar que a Cinderela foi ao encontro de um príncipe, enquanto nós, na atualidade, constantemente estamos ao encontro de sapos. Então o que aconteceu com os príncipes? Hoje os que se dizem príncipes, dançam e rebolam descoordenadamente até o chão para chamar a atenção, eles bebem até perderem o limite do piso onde por mais três vezes caem indo quase ao chão, eles lançam seus olhares a todas a seu redor, nos confundem, eles dialogam com metáforas um tanto ridículas e sem graça, eles pegam no seu cabelo com um gesto pegajoso e quando cansam, desaparecem, vão tomar mais uma cerveja, tentar outros horizontes, até que, quando você menos espera, aparecem, e daí começa tudo de novo.

Fico me perguntando onde estão os caras que te chamam para conversar num canto, longe da música alta, te oferecem uma bebida, fazem perguntas inteligentes que podem sim aparentar um interesse mas de forma sutil, e isso nem de longe se aplica a dizer intempestivamente “rola um beijo”, estou dizendo, daqueles que se faltam coragem, vão se aproximar de forma amigável, saber dos seus gostos, aquele cara que vai antes de tudo transformar sua noite agitada e confusa, numa boa conversa. Aquele cara que caso não “role um beijo” pode ser um bom amigo. O cara charmoso que delicadamente se aproxima. Guerreiras e Cinderelas estão à espera desse cara.

A impressão que tenho, é que estamos numa maratona, o sexo é o único objetivo da night, todos focados nisso, e o pior, quanto mais direto e estranho for, melhor. Se for atrás do banheiro, no carro, na rua, ótimo, prático, fácil e rápido porque o salão está cheio.

A noite passa, a Cinderela nem se quer se deu ao luxo de levantar, ela está envergonhada de estar ali, ela não aprendeu a fazer de um limão, uma limonada, ela nem gosta de limonadas, ela reflete sobre o tempo perdido, ela lamenta, ela se sente fracassada, ela por uns instantes até pensa que fim se deu da outra personagem desta história, nossa Guerreira, tão descrente, ela a procura e conselhos são trocados, e só assim segue para sua carruagem.

Não foi dessa vez, que Cinderela saiu do casulo, ao tirar sua maquiagem já em casa, ela se olha no espelho e descobre que depois que se conhece o prazer da solidão é difícil estar disposta ao acaso.

E quanto ao conselho dado, nossa Guerreira, assertivamente afirma que a busca por um príncipe pode ser mais divertida do que o próprio príncipe. Enquanto Cinderela, assegurou de que nem todos os lugares são para se deixar cair seus sapatos, ás vezes o lugar mais seguro para eles, é dentro de sua bolsa. Mas o que ficou mesmo foi que enquanto gentilmente ao fitar os olhos de nossa Guerreira, ela entendeu que a felicidade consiste em se permitir, e que isso não pode machucar mais do que a sua solidão.