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sexta-feira 7 agosto 2020
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Festival de Berlim aplaude dramas brasileiros sobre sexualidade.

Tema complicado de ser abordado no Brasil em tempos atuais e para comprovar tal afirmação, basta acessar a rede mundial de computadores, seja em conteúdos jornalistico a cerca do tema, seja em redes sociais.

Sexualidade é um termo amplamente abrangente que engloba inúmeros fatores e dificilmente se encaixa em uma definição única e absoluta, daí talvez o não entendimento de muitos em um país que não está habituado ao debate e formação de conceitos.

No que tange a teoria, a sexualidade como conhecemos e embasada pelo Art 2º do ECA (Estatuto da criança e do Adolescente), inicia-se juntamente à puberdade ou adolescência, o que deve ocorrer por volta dos 12 anos de idade. Entretanto, em prática, para quem estuda e se aprofunda no assunto sabe-se que a realidade é outra.

O termo “sexualidade” nos remete a um universo onde tudo é relativo, pessoal e muitas vezes paradoxal. Pode-se dizer que é traço mais íntimo do ser humano e como tal, se manifesta diferentemente em cada indivíduo de acordo com a realidade e as experiências vivenciadas pelo mesmo.

A noção de sexualidade como descoberta das sensações proporcionadas pelo contato ou toque, busca de prazer, atração por outras pessoas (de sexo oposto e/ou mesmo sexo) com intuito de satisfação dos desejos do corpo, entre outras características dependente de fatores genéticos e principalmente culturais. O contexto influi diretamente na sexualidade de cada um.

Verifica-se atualmente a confusão do conceito de sexualidade com o do sexo propriamente dito. É importante salientar que um não necessariamente precisa vir acompanhado do outro.

Logo, cabe a cada um, individualmente, a decisão pelo momento propício para a manifestação da sexualidade na forma física, bem como o momento em que deseja que a sexualidade seja compartilhada com outro indivíduo através do sexo, que é apenas uma das suas formas de se chegar à satisfação desejada.

Outro erro ligado ao tema é a confusão entre sexualidade e sexismo. Sexismo na realidade é um termo utilizado para referir-se  ao conjunto de ações e ideias que privilegiam determinado gênero ou orientação sexual em detrimento de outro gênero (ou orientação sexual). Embora muitos empreguem o termo como sinônimo de machismo, não o é, visto que na verdade é um Hiperônimo deste, posto que é possível identificar diversas posturas e ideias sexistas que privilegiam um gênero em detrimento a outro.

Sendo ambos os termos carentes de debate contundente em tempos atuais, onde observa-se cada vez mais a regressão da sociedade a tempos de outrora e um exacerbado crescimento do conservadorismo, que jamais, em tempo nenhum é propicio a discussão de vários temas, acredito que obras como as que foram aplaudidas em Berlim e que serão apresentadas no decorrer deste texto contribuem e muito para esclarecimentos sobre o tema e servem como ponto de partida para debates.

Posto isso, vamos ao filmes aplaudidos no festival de Berlim, ou seja, “Mãe só há uma” de Anna Muylaert e “Antes o tempo não acabava” de Sérgio Andrade e Fábio Baldo:

“Mãe só uma”

O filme marca o retorno da maravilhosa Anna Muylaert (Sucesso com Que Horas Ela Volta? em 2015). Segundo Anna “Esse não é um filme sobre se sentir bem, mas sobre se sentir autentico”. Muylaert teve sessão lotada no festival de Berlim. O filme conta a história de Pierre (Naomi Nero) adolescente que descobre ter sido roubado na maternidade e tem de se adaptar a nova família.

Por outro lado, seus pais biológicos (o excelente Matheus Nachtergaele e Dani Nefussi) também precisam aprender a se adaptar, não somente com presença do filho, como à sua transsexualidade que começa a irromper.

O filme é uma produção mais barata (não teve valores de Que horas ele Volta?) e lembra mais os filmes do inicio da carreira da diretora como o maravilhoso “Durval Discos” que sou fã e “É proibido fumar”, onde o grande valor dos filmes se dá a um olhar mais atento na sutileza dos gestos e nos diálogos, muito deles, espontâneos. O que realmente me remete a “Durval Filmes”.

No filme de Anna a tônica sexual aparece já na primeira cena do filme, onde Pierre transa com uma garota e a câmera revela com total sutileza que o mesmo está usando cinta liga. O filme recebeu elogios da revista “The Hollywood Reporter”. Pelo que li, Muylaert vem com mais uma obra prima e de extrema qualidade para nosso cinema Nacional.

“Antes o tempo não acabava”

Um filme de Sérgio Andrade e Fábio Baldo aborda a sexualidade ao tratar da busca de identidade pelo protagonista Anderson (Anderson Tikuna), que vive na zona cinzenta e tênue entre o mundo dos brancos e o mundo dos Indígenas da periferia de Manaus.  O personagem de Anderson foge da Aldeia para se inserir na cidade grande e nesse processo de inserção veste camiseta da banda Kiss, dubla Beyoncé na frente do espelho, transa com homens e com mulheres.

Um filme complexo que lida com diferenças sociais, questão de raças, questão cultural, inserção na sociedade e sexualidade. Bem recebido pelas criticas a que tive acesso, o filme, na minha opinião promete levantar discussões sobre várias temáticas no Brasil e espero sinceramente que tais discussões sejam produtivas para o enriquecimento da educação e cultura brasileira e mais que não se torne uma discussão vazia e cheia de rótulos impostos pelo conservadorismo.

“Curumim”

Além dos dois filmes aclamados pelo público do festival, há outra estreia de Brasileiro em Berlim, neste caso o documentário “Curumim” de Marcos Prado, que conta a história de Marco Archer, brasileiro executado na Indonésia, ao entrar no país com cocaína. O filme é baseado no livro “Condenado a Morte” do jornalista Ricardo Gallo. O filme mostra a trajetória do ex-surfista que após entrada no país foi condenado e esperou pela sua execução no corredor da morte. Uma curiosidade é que as cenas da prisão foram registradas com câmera escondida.

Vale conferir esse registro assim como os demais filmes. Aguardemos que tais obras cheguem ao cinema do Brasil e torçamos para que tenham destaque nas salas de cinema, algo raro de acontecer com dramas nacionais.