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terça-feira 12 dezembro 2017
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Curiosidades sobre Livros Didáticos – O Dia do Livro Didático

Quem não se recorda do primeiro livro didático? Ou da primeira cartilha de alfabetização que ganhou? A cartilha é o mais básico dos livros didáticos, praticamente todas as crianças e adultos que buscam alfabetização iniciam com uma cartilha. A minha cartilha se chamava Este Mundo Maravilhoso de Esther Sarli. Até hoje me recordo da capa e das figuras! Lembro-me de andar o tempo inteiro com a cartilha debaixo do braço para ler e decorar sílabas e formar palavras. Meus pais sempre tiveram livros que eu olhava e remexia, mas esta cartilha foi o primeiro livro só meu!

Cartilhas e livros didáticos são de importância basilar para a formação das crianças, são estes livros que disparam o gatilho da aprendizagem e desenvolvimento cognitivo humano. Eles funcionam como apêndices para os livros clássicos de literatura, que eram utilizados na escola. Inicialmente sua função era voltada para a alfabetização – a Cartilha. Mas se tornaram fontes mais complexas para a introdução e divulgação das ciências, história e filosofia. Nos últimos anos, muitos conceitos educacionais mudaram, mas cartilhas e livros didáticos permanecem praticamente iguais, de tão importante que são.

Os livros didáticos foram introduzidos no ensino brasileiro por iniciativa individual dos educadores: Hilário Ribeiro e Eudoro Berlink. Um exemplo interessante foi o de Wilhelm Rotermund que escrevia cartilhas cujo interesse não estava apenas na educação comum das crianças, mas também na preservação da cultura alemã dos imigrantes do sul do país. Somente mais tarde, com Getúlio Vargas, o estado tomou a frente na unificação da educação e desenvolveu através do Ministério da Educação a Comissão Nacional do Livro Didático, em 1938.

128804_516Um das cartilhas clássicas da educação brasileira foi Cartilha Sodré de Benedicta Sthaltimthumb Sodré. Esta pequena cartilha, vendeu a marca de 6 milhões de exemplares e possui incríveis 273 marcando gerações inteiras. Um exemplar antigo pode custar no mercado de 500 a mil reais, para os saudosos colecionadores. As pessoas que com ela estudaram são saudosas de seu pequeno livro de leitura, que hoje em dia passou a valer muito. Só para se ter idéia, um exemplar pode chegar a custar de 500 a mil reais! Outro clássico é Caminho Suave ricamente ilustrada e escrita por Branca Alves de Lima. Ela foi durante muito tempo a “rival” da Cartilha Sodré, grampeada e simples. Para as pessoas simples ou de interior, estes pequenos e coloridos livros eram verdadeiros tesouros. As crianças humildes ansiavam por ter uma cartilha!

As  cartilhas (hornbook) mais antigas de que se tem notícia são de 1460, criadas na Inglaterra. Ele consistia na verdade em uma pequena tabuinha de madeira, osso, couro ou pedra e protegido por uma folha fina e transparente de mica ou chifre. Nela se escreviam as letras do alfabeto. Algumas mais modernas possuíam presilhas onde se fixavam folhas com textos educativos e religiosos para a educação. Shakespeare chega a fazer menção a uma cartilha em sua peça Trabalhos de Amor Perdido, na qual os personagens discutem sobre como escrever determinadas palavras.

antigos hornbooks em madeira

antigos hornbook em madeira

antigos hornbooks em madeira.

Outro livro didático antigo e notório foi o The New England Primer do século XVIII, sendo textbook (livro didático) feito nas colônias americanas dos Estados Unidos. Logo de início foi um sucesso de vendas. No século anterior, eram utilizados livros didáticos ingleses. Assim para os americanos, este livro didático tinha o gosto de uma conquista cultural. Entretanto ela não passava da inglesa English Protestant Tutor renomeada e com adições. E só foi substituída pela Blue Back Speller após quase trinta anos de utilização massiva. Seu criador foi Benjamin Harris que fugiu da Inglaterra católica de James II e pretendia estabelecer uma forma de educação escolar baseada nos preceitos protestantes. Algo curioso é que além do conteúdo comum a uma cartilha, ela possuía seus textos didáticos formados a partir de versículos e máximas religiosas, com xilogravuras que até mesmo para aquele tempo pareciam desenhos mórbidos de livros de feitiçaria medieval!

duas páginas da

duas páginas de The New England Primer, usado histórias bíblicas para a educação infantil.

Percebe-se que sua função não era apenas educar intelectualmente o cidadão, mas catequizá-lo religiosamente. A visão de mundo predominante era puritana, com sua atitude obtusa, afirmativa e sóbria, que entremeava ensinos religiosos no aprendizado secular. Este verdadeiro artefato educacional continuou sendo impresso século XIX e até mesmo no século XX, sendo utilizada!

cartilha de inglês para a colônia nigeriana

cartilha de inglês para a colônia nigeriana

Outro exemplo interessante era o Queen Primer Book que era uma cartilha de inglês para ensino da língua aos nigerianos, já que a Nigéria teve colonização britânica. Em línguas latinas, outra cartilha que fez história e atravessou fronteiras foi a italiana Giannetto (Joãozinho) criada pelo pedagogo Luis Alejandro Parravicini em 1836. Parravicini foi diretor de escola fundamental por dezesseis anos e sua metodologia era: “a educação é a influência exercida pelo homem sobre o homem com a intenção de estimular, desenvolver e guiar corretamente suas disposições naturais”.
Gianneto chegou a ser premiada pela Societá de Istruzione de Fiorenze e chegou a ser traduzida e editada para o espanhol como Juanito e depois como El Nuevo Juanito que foi editada mais de 60 vezes deixando ricos os editores, mas fazendo pobre seu criador, que não lucrou praticamente nada com o livrinho. Outra curiosidade significativa sobre livros didáticos antigos é que nas historinhas contadas para construir frases, palavras ou sílabas, as meninas e as mulheres nunca era protagonistas, aparecendo apenas secundariamente e nos papéis impostos pela sociedade da época. Gianneto e sua versão espanhola são um exemplo desconcertante disto. Em praticamente todas as gravuras, só há cavaleiros distintos e meninos, nas mais diversas situações, enquanto as mulheres surgem como empregadas ou mães.

Juanito mulheres em papéis servis

gravura de Juanito com mulheres em papéis servis

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uma das gravuras de Juanito, na qual se pode ver apenas homens.

Pode parecer que não, mas a histórias dos livros didáticos é interessante e cheia de muitas outras curiosidades. É possível ver os conceitos arraigados que norteavam aquilo que se entendia como educação: a religião, o sexismo, a hierarquia social. Hoje os livros didáticos parecem de certo modo mais politicamente corretos. Nos últimos anos, houve a inserção da educação sexual, depois o embate sobre quais teorias evolutivas deveriam constar em livros didático: a Criacionista ou a teoria Darwiniana da Evolução. Após isso houve a revolução dos gêneros e a fabricação de cartilhas para educação infantil sobre a variedade de gêneros e por fim a desclassificação de Plutão como planeta.
Como se vê, os livros didáticos são mutáveis e representam verdadeiros documentos do desenvolvimento cultural dos povos. Através da análise desses conteúdos, pode-se vislumbrar não apenas o progresso humano nas ciências, mas também, como o senso humano apreende, vivência e lida este conhecimento.
Quanto ao momento atual da educação brasileira. Os investimentos em livros didáticos têm sido cada vez maiores enquanto paradoxalmente os índices de alfabetização e aprovação não mudaram muito. Dados significativos apontam que desde 2011, foram comprados 135,6 milhões de livros adquiridos pelo PNLD (Programa Nacional do Livro Didático), que investiu 880,2 milhões de reais, para a distribuição gratuita nas redes de ensino de todo o país. Estas contas demonstram que através do PNLD, o Brasil comprador de livros didáticos do planeta.

Parabéns ao livro didático!!!