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quinta-feira 19 outubro 2017
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O Impacto Latino, Nacha Moretto

Imagem Arquivo Pessoal
Imagem Arquivo Pessoal

Nacha Moretto é o que se pode chamar de típica paulista. Sotaque carregado, risada estrondosa, conversa boa. Olhando mais de perto, sua voz grave e firme revela a força de uma mulher que precisa se reinventar a todo momento para não perder a chance de ser quem é.

Iniciou a carreira ainda criança motivada pela mãe, que queria ter a oportunidade de assistir aos filhos brilharem nos palcos, apaixonada por música que sempre foi.

Ainda adolescente enfrentou os desafios e as exigências impostas pelas bandas de baile famosas do interior de São Paulo: “Eu não podia tomar nem sorvete para não prejudicar a voz.”

A voz, e a disciplina aprendida, a levou ao Raíces de América importante banda de música latina, que iniciou suas atividades na década de 70 e que conquistou um público cativo no Brasil e no exterior, apresentando-se em famosos programas de televisão.

A banda também foi o ponto de encontro de Nacha com dois amores, o esposo, Jorge Menares e a música latina.

De lá para cá, cantou em todos lugares e bandas para os quais foi convidada. Foi dona de restaurante, aprendeu a tocar instrumentos e a compor, montou a Impacto Latino e foi estudar música na UnB. Cheia de planos e de ideias não se rende aos obstáculos do caminho. Onde não existe oportunidade, ela cria.

Nessa entrevista, Nacha conta sua trajetória, explica sua fama de polêmica e mostra a vontade latente em todo artista: o desejo de desnudar a alma no palco, sem medo, sem correntes e com respeito!

Imagem Arquivo Pessoal

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TOCult: O Raíces de América é uma banda de muito sucesso! Muito famosa no Sudeste e com uma boa trajetória internacional, como foi sua experiência na banda?

Nacha Moretto: Eu entrei na banda na década de 80, fui a terceira vocalista do grupo que teve um boom muito grande nas décadas de 70 e 80, sobretudo, em função da ditadura. Os estudantes e grêmios estudantis identificavam-se demais com a banda, com som que apresentávamos. Era uma banda que cantava o que o povo queria escutar, não o que os militares permitiam tocar. Fazíamos nossas reivindicações através da música de compositores proibidos no país, muitos exilados, inclusive. Dávamos voz a Chico Buarque, Milton Nascimento, Caetano Veloso, entre outros.

A Banda Raíces de América

Raíces de América

TOCult: Mesmo com essa relação com os movimentos sociais da época, a banda já tinha um caráter bastante profissional chegando a se apresentar, inclusive, no Fantástico.

Nacha Moretto: Sim, muito profissional. Nós ensaiávamos muito! Tendo show ou não nos encontrávamos para ensaiar. E, sempre havia algum show para nos apresentarmos. Mas acho interessante pontuar que essa questão do ensaio e do profissionalismo veio em função da presença do Willy Verdaguer, grande ex-baixista do grupo Secos & Molhados. É dele, por exemplo, os arranjos em “Sangue Latino” e em outras músicas do grupo. Ele saiu dos Secos & Molhados e se uniu ao Raíces para ser diretor. Não havia possibilidade de não ser extremamente profissional. Quanto ao Fantástico, me recordo, era época de excelentes apresentações musicais no programa, e o Raíces apresentou-se cantando “Guantanamera”.

A Banda Raíces de América

Raíces de América

TOCult: Jorge Menares, seu esposo, é chileno. A paixão pela música latina veio dessa relação?

Nacha Moretto: Sim. Veio com o Jorge e com o Raíces. Na verdade, eu entrei no Raíces e quem me deu a maior força foi o Jorge. Foi ele quem me ensinou a tocar o cuatro, o charango, me ensinou a falar espanhol. A gente se identificava demais. Íamos para o teatro juntos, para o hotel juntos, tomávamos café sempre juntos. As pessoas, na banda, tinham suas panelinhas, logo formamos a nossa dupla, nossa panelinha, além é claro, de termos uma particularidade em comum: somos muito chatos.

TOCult: Chatos mesmo ou exigentes com o profissionalismo?

Nacha Moretto: (rindo) A turma fala que nós somos chatos mesmo. Mas não somos chatos. E nem exigentes. É que eu cresci assim. Meu pai era músico, olha a responsabilidade! Minha mãe me colocava em cima da cama para ficar na mesma altura que ela e me fazia ensaiar, ensaiar muito. Tive professores de música rígidos, perfeccionistas. Com 16 aos entrei pro Sexto Sentido, que era o maior grupo de baile da região de Campinas. O nível de exigência nesse grupo era alto. Para se ter uma ideia, se eu tomasse um sorvete os diretores implicavam, não permitiam, poderia prejudicar a voz.

TOCult: Então a música, a esse ponto, já era algo muito sério para você?

Nacha Moretto: Sempre foi! Eu tirei minha carteira de músico com 15 anos. Só pude buscá-la aos 18, minha mãe teve que ir comigo para São Paulo e foi um dos dias mais felizes. Nesta época eu estava nos grupos de baile onde todos estudavam muito: voz, instrumentos, palco. Contudo, não desenvolvíamos a escrita, a composição, pois éramos uma banda de interpretação de músicas de outros artistas, músicas famosas, conhecidas pelo grande público, que era na realidade o que levava as pessoas aos bailes, às festas. Eu cantava Bee Gees, Michael Jackson, Ray Conniff, no tom deles, das onze da noite às cinco da manhã. Não parava. Era uma época de ouro, maravilhosa. Então eu parei com meus estudos particulares, com a composição. Porque ou você cantava e viajava ou estudava e não trabalhava. E eu fui trabalhar! Minha família não era bem economicamente. Eu optei por interromper esses estudos para ganhar a vida.

Apresentando-se no Programa Clube do Bolinha

Apresentando-se no Programa Clube do Bolinha

TOCult: Você começou a cantar muito cedo, aos cinco anos, influência dos pais?

Nacha Moretto: Culpa da minha mãe (Dona Venina, que acompanhava a entrevista de um sofá próximo). A mamãe que me colocou no palco e acho que foi antes dos cinco. O pai dela tocava violão junto com o irmão dele que tocava, se não me engano, trombone. Eles faziam serestas e ela pequenininha grudava na perna dele chorando querendo ir para assistir as cantigas. Ela sempre teve esse fascínio por música. Acompanhava e voltava de madrugada nos colos. Quando criança não aguentava a festança, hoje aguenta. Quando éramos criança meu pai trazia o regional dele para casa e ficávamos todos assistindo aquilo. Não tinha nem bebedeira. Era pela música. Ele juntava meus irmãos e eu e íamos cantar. Eu que era a mocinha cantava Wanderléa. Éramos, nessa formação do meu pai, Os Irmãos Moretto.

Dona Venina, mãe

Dona Venina, mãe

TOCult: Sempre manteve sua família com a música?

Sim, todos nós. Meu pai, apesar de ter sido carpinteiro, era apaixonado por música e tocava nos regionais, e eu meus irmãos fomos trabalhar com a música. Meu irmão só deu conta de trabalhar num escritório até os dezoito anos. Não conseguiu, foi pra noite tocar. Só que nunca tocamos juntos, meus irmãos e eu. Um deles se dedicou ao samba, trocou um par de sapatos por um pandeiro. Saiu para comprar um sapato e voltou com o instrumento. O outro se dedicou ao rock,  hoje mora na Espanha e eu fui para os bailes. Diferente deles, que tinham uma linguagem musical definida eu cantava de tudo. Eram os bailes. Só fui ter minha linguagem e me encontrar quando entrei no Raíces e conheci a música latina.

Os Irmãos Moretto

Os Irmãos Moretto

TOCult: Você acha que o público geral tem um mal entendimento do que seja a música latino-americana.

Nacha Moretto: O pessoal acha que música latino-americana é só música cantada em espanhol, usando ponchos fedidos, é muito rotulado. Falta ouvido para ouvir as canções da América. O brasileiro de uma forma geral, às vezes, parece não se incluir nesses ritmos, não se envolver com eles.

TOCult: Muita gente se liga muito mais com as produções artísticas em geral norte-americanas do que com a nossa. Nosso pop é gringo!

Nacha Moretto: Mas é claro! Liga ali o rádio. Você escuta alguma música em espanhol? No Chile, eu ouço no ônibus Ivan Lins. Na calçada de uma loja onde eu comprava um sapato, ouvi Michel Teló! Pensei: “não acredito que é Michel Teló!” Fui a um karaokê e me apresentaram como cantora ao dono do lugar que me disse que eu tinha que cantar. Na hora peguei o microfone e comecei: “Nossa, nossa, assim você mata…” O povo quase enlouqueceu! Gostaram tanto que eu ganhei até bebida. Michel Teló, imagina?

TOCult: Da onde você acha que vem essa falta de valorização da nossa própria cultura?

Nacha Moretto: A mídia, com certeza. A mídia que massifica isso. É por onde as coisas vêm, por onde a gente absorve. Agora, se dentro da sua casa não se tem o hábito de escutar certo típico de música, a nossa música, a música latina, sua família também não ouvirá essa música. Seus filhos não ouvirão. E assim não se cria essa identidade com a nossa cultura. É a mídia, mas são nossos gostos em casa também. Se eu não coloco algo bom para meu filho ouvir, quem vai pôr é a mídia, a novela.

TOCult: Como foi que Palmas apareceu na história de vocês?

Nacha Moretto: Nós tínhamos um restaurante em São Paulo, onde também cantávamos. Mas estávamos cansados, querendo experimentar outras coisas, e montar uma banda. Tínhamos uma amiga que morava aqui e que nos convidou para conhecer e quem sabe, morar aqui. Eu não vim de primeira. Veio o Jorge. Chegando aqui ele se encantou. Depois eu vim e decidimos arriscar. Hoje posso dizer que essa é minha casa. Tudo e todos que conhecemos está aqui. Às vezes, por conta de algumas dificuldades, pensamos em ir embora. Mas pensamos: e começar do zero, sem ninguém? Aqui a gente tem um nome. Eu sou a Nacha, ele é o Jorge Menares. Temos a Impacto Latino.

Com o amor de 30 anos, Jorge Menares

Com o amor de 30 anos, Jorge Menares

TOCult: A Impacto Latino é uma banda que tem a cara e alma das suas antigas bandas de baile?

Nacha Moretto: Quando nós montamos a Impacto Latino aqui, ficamos preocupados com algumas reações das pessoas. Aquilo que falamos sobre o mal entendimento do que é latino. Tivemos que falar para as pessoas que era Impacto Latino mas que tocávamos de tudo. A banda faz salsa, faz merengue, faz forró, faz samba, axé, anos 60. Entrar nessa linhagem de baile foi meio obrigatório para que houvessem eventos. Mas nós fazemos e fazemos bem!

TOCult: Como é essa rotina dos shows, de produção e logística, por exemplo?

Nacha Moretto: Hoje em dia eu me tornei uma artista polêmica em Palmas, por essas questões. As pessoas não querem saber de onde você vem, quem é você, qual sua história, a sua trajetória. Não respeitam isso e não te respeitam. Acho sofrível você, às vezes, fazer um show aqui, público ou privado, e não haver um copo d’água para se tomar no camarim. Onde está a produção para deixar uma coisa tão trivial como um copo d’água a sua disposição? Algo, mesmo que simples, para comer. Isso é desrespeitoso com o artista, qualquer artista, sobretudo o regional, que muitas vezes é quem mais sofre com isso. E é muito chato. Parece que eu sou polêmica mas esse tratamento não é só comigo.

TOCult: Outros artistas também tem uma opinião desfavorável em relação a isso?

Nacha Moretto: Sim. A maioria. Os artistas até se encontram, reivindicam, querem cobrar mais respeito, melhores condições de trabalho. Mas quando é preciso bater de frente mesmo as pessoas somem. Veja bem, não estou julgando ninguém. Não quero ser melhor que ninguém. Mas também não posso ser tratada pior. Ninguém pode. Todos precisamos receber o mesmo tratamento nos camarins, nos palcos, nos ensaios. Às vezes, não tem iluminação no palco, não tem retorno, o som não é o recomendável. O pagamento, por vezes atrasa. Todos os artistas sofrem para receber alguns contratos. Não é muito justo. Quero respeito, é bem simples. Os artistas acham que quero para mim mas eu quero para todos nós. Mas precisamos de união, todos reivindicando isso juntos.

TOCult: Você acha que isso compromete a criação de um show, temendo não poder executá-lo fielmente?

Nacha Moretto: Compromete muito. Em função de não haver alguns contratos, Jorge e eu começamos a bolar planos. O nosso plano B, por exemplo, é o fornecimento de um jantar típico chileno, sobremesa típica, instrumentos típicos e neste encontro cantamos e cozinhamos para uma média de vinte pessoas, na residência delas. Plano B! Para a gente não parar de fazer o que gostamos, ou seja a música em paralelo com a cozinha que é nossa outra paixão.

As famosas empanadas feitas para o Plano B

As famosas empanadas feitas para o Plano B

TOCult: O artista tem que ter essa elasticidade, concorda?

Nacha Moretto: Claro. Também estamos aguardando que saia o edital onde fui contemplada no Prêmio Dona Dalva de Música, de 2013, que é o projeto de um cd infantil com músicas do Tião Pinheiro. Vamos gravar com crianças de escolas públicas.

TOCult: O curso de licenciatura em Música da UnB é um Plano C?

Nacha Moretto: Imagine eu aos 54 anos de idade! Ano passado terminei Publicidade. E aí comecei esse curso que é muito puxado. Você não tem vida! Estamos na metade do curso, começamos com 20 alunos e agora só tem nove. Então, esse é meu plano C. Eu vou arrumando alternativas. Gosto de dar aulas, no entanto, para nível superior. Vamos ver se aguento até lá.

TOCult: Com 54 anos de idade, muitos deles dedicados à música e com tanta experiência de vida, consegue tirar de letra as cobranças de uma faculdade nessa área?

Nacha Moretto: Sim, consigo. Eu me estresso, sempre tem estresse mas continuo. Por exemplo, eles enviam partituras de músicas brasileiras, tipo Carinhoso. Eu jamais solei uma música, e aí você tem que tocar, filmar e enviar para o curso para o professor avaliar. Você acredita que eu solei Carinhoso? E estou agora “tirando” As Rosas Não Falam.

TOCult: Você tem planos A, B e C. Tem mais coisas aí?

Nacha Moretto: Sim! Eu sou cheia de planos. Tenho um abecedário inteiro de ideias para cumprir. Nós dois, na verdade, Jorge e eu. A gente senta para tomar café juntos e a mente cria, vai criando. A ideia é não desistir, não parar. Nunca!  

 TOCult: Quando você fala do passado, como várias vezes na nossa conversa, você fala com uma propriedade de quem viveu bem todos os momentos, sem aquele típico saudosismo que parece mascarar arrependimentos. Eu acho que tem mais em você um quê de futuro do que do passado. É isso mesmo?

Nacha Moretto: Com certeza. Eu valorizo todas as experiências que obtive da minha trajetória, por mais que elas tenham sido dolorosas. Foram aprendizados. Cada uma delas. Muitas pessoas passaram pela minha vida e vieram para somar, para me ensinar. Lembro e tenho saudades, sim. Mas uma saudade respeitosa de saber que sou a pessoa e a profissional que sou por ter vivido com tantas pessoas e situações diferentes. Eu respeito horários, figurino impecável, porque o público quer ver isso, e é para esse público que subimos ao palco. Não tem nenhum arrependimento e com certeza eu faria tudo de novo. A mesma coisa, com o mesmo interesse em aprender e o mesmo prazer.

A menina que cantava Wanderléa

A menina que cantava Wanderléa