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terça-feira 17 outubro 2017
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Dia do Cinema Brasileiro

 Há uma grande discussão sobre quando é o Dia do Cinema Brasileiro. Alguns dizem que é dia 19 de junho, quando em 1898, o cineasta italiano Afonso Segreto fez as primeiras filmagens do Brasil, registrando a Baía de Guanabara. Outros afirmam ser hoje, dia 05 de novembro em homenagem ao cineasta Paulo Cesar Saraceni, nascido neste dia em 1933, e que foi de grande importância para o cinema brasileiro, principalmente na criação do Cinema Novo.
A Ancine considera a primeira data como a oficial, 19 de junho, mas como o cinema nacional merece ser sempre festejado, a gente do TOCult vai celebrar nas duas datas! Para a homenagem de hoje, nós separamos os dois filmes tupiniquins que, para cada um de nós, são os mais representativos.
Nós sabemos que há muito preconceito com as produções nacionais. Uma perda de tempo. Nos últimos anos os longas produzidos por aqui tem elevado as exigências de padrão que vão desde roteiro à figurino. Não obstante, temos exportado para grande fábrica de sonhos Hollywood diretores, atores, treinadores de elenco e por aí vai.
Também destacamos que essa lista é bem pessoal. Ela em nada tem a ver, por exemplo, com números de bilheterias, indicações ou premiações, importância da obra para cultura e sociedade. Esta última questão é entendido, por nós, como o fato de que toda produção genuinamente nacional tem valor para cultura e sociedade do nosso país.
Assim, não poderíamos deixar de dizer que muitos títulos importantes ficaram de fora. Então, nossa homenagem também aos filmes de Mazzoropi, Oscarito e Grande Otelo, à Terra em Transe e Deus e o Diabo na Terra do Sol de Glauber Rocha; O assalto ao trem pagador, de Roberto Farias;  O bandido da luz vermelha, de Rogérío Sganzerla; Bye bye Brasil, de Carlos Diegues; Macunaíma, de Joaquim Pedro de Andrade; O pagador de promessas, de Anselmo Duarte; Pixote – a lei do mais fraco, de Hector Babenco; Toda nudez será castigada, de Arnaldo Jabor; Vidas secas, de Nelson Pereira dos Santos; Olga, de Jayme Monjardim, Tropa de Elite de José Padilha, Dois Coelhos de Afonso Poyart, Que horas ela volta? de Ana Muylaert e muitos outros.

Hayla Menares:

Lisbela e o Prisioneiro
Ano: 2003
Direção: Guel Arraes
A história bonitinha gira em torno da relação de Lisbela, a mocinha sonhadora que se apaixona pelo malandro Leléu. Na trama, ela não resiste às tentações do conquistador mesmo estando noiva e de casamento marcado, o que resulta num jogo de cenas e marcações que lembram o teatro, com diálogos marcados pela caricatura do interior sertanejo e alguns de seus personagens típicos: o valentão, a solteirona assanhada, o delegado, o matador. O filme é uma adaptação da peça homônima de Osman Lins. Destaque para a trilha sonora com músicas de Caetano Veloso e ao tema Lisbela, por Los Hermanos.
O Homem que desafiou o Diabo
Ano:2007
Direção: Moacyr Góes
José Araújo, um caixeiro-viajante alegre e sedutor, chega à pequena cidade de Jardim dos Caiacós onde conhece “Turco”, dono de armazém e pai de Dualiba, quarentona fogosa e virgem. Entusiasmado pela bela balzaquiana, Zé Araújo faz o que nenhum homem até então tinha ousado. Dualiba conta para o pai e Zé é obrigado a se casar. Anos depois, conformado com o destino, ele descobre ser motivo de piada na cidade. O pacato Zé Araújo “vira bicho”, destrói o armazém do sogro, dá uma surra na mulher e procura o tabelião para registrar o seu próprio nascimento, desta vez como Ojuara (Araújo ao contrario). Nasce assim um caboclo destemido, vestido com roupa de couro, pronto para desbravar o sertão em defesa dos desfavorecidos e buscar o próprio destino.

Marcus Garcia

Dzi Croquettes
Ano: 2009
Direção: Tatiana Issa, Raphael Alvarez

Este majestoso e emotivo documentário revive a essência contestadora do grupo teatro-musical Dzi Croquettes. É uma produção importante, sobretudo, porque revela esse grupo pouco conhecido atualmente, mas que de grande importância para a história da arte brasileira. Eles, todos homens, foram os precursores da contravenção artística quando se pintavam e vestiam como mulheres e se apresentavam espetáculos cheio de ironia e deboche, confrontando a ditadura.

O grupo fez tanto sucesso no país e também na Europa com turnês de sucesso. Apadrinhados por Liza Minelli, a essência do grupo foi traduzida, anos depois, para diversos ícones da cultura brasileira, como Ney Matogrosso, o bando teatral Asdrúbal Trouxe o Trombone, as Frenéticas e outros. No documentário,todos esses nomes e muitos outros, relembram como os Dzi foram importantes para suas carreiras.
O ano em que meus pais saíram de férias
Ano: 2006
Direção: Cao Hamburguer
A história se passa em 1970, em pleno período de repressão e perseguições políticas no país. A trama conta a história de Mauro, um menino cujos pais o deixam com avô para que possam tirar férias repentinas. O Avô (vivido por Paulo Autran) tem seus próprios problemas e o menino é relegado aos cuidados de um velho judeu, vizinho do avó de Mauro. O filme é importante pelo retrato que faz de um época delicada da nossa história através do olhar e sentimentos de uma criança, que, se supõe, estar alheia ao que lhe ocorre. Cao Hamburguer constrói uma relação apurada entre o menino e o idoso judeu.

R. Rodrich

A Mulher invisível
Ano: 2009
Direção: Cláudio Torres

O cara leva um pé na bunda e numa viagem de baixa autoestima e insanidade, passa a se relacionar com uma mulher incrível que apenas ele vê. “Talvez seja meio absurdo para você, mas eu amo a minha mulher”. Já na frase de abertura é possível registrar a quase ingenuidade de Pedro (Selton Mello) e adianta a personalidade do personagem que nos mostra que, mesmo em tempos de não lugar para o amor, ainda existem os românticos incorrigíveis.

 O Homem que copiava
Ano: 2003
Direção: Jorge Furtado
O homem que copiava fala da capacidade de alguém em fazer algo para conquistar aquilo que deseja, nesse caso, uma mulher. O protagonista vivido por Lázaro Ramos descobre que pode mudar de vida, e conquistar a garota dos sonhos, copiando notas de cinquenta reais. Quando o plano começa a vingar ele acha que precisa de mais e assalta um carro forte. O Homem que Copiava também explora a falta de perspectiva das pessoas, dos inconformados com a falta de oportunidades. A insatisfação com o próprio destino traçado e o desejo de mudança.

 Raquel Etges

Central do Brasil
Ano: 1998
Direção: Walter Salles

Yes, we have Fernanda! A gente quase nem precisa falar de Central do Brasil, não é? O filme é um dos mais importantes da nossa história, não somente pela delicadeza e importância do roteiro, mas também pelas indicações e premiações que o envolvem, como por exemplo, a indicação ao Oscar de melhor atriz para Fernanda Montenegro, de melhor filme estrangeiro, e vencedor nesta mesma última categoria do Globo de Ouro.

O filme, sentimental até as tampas, fala da relação de Dora e Josué, quando ela se vê obrigada a auxiliá-lo em uma jornada em busca do pai, após a morte da mãe. O pai mora no interior do país e a viagem dos dois é mais do que simplesmente física, é também uma busca cheias e descobertas e revelações, da gente como um povo, e da gente como indivíduo. O título Central do Brasil é uma brincadeira com o nome da estação famosa do Rio do Janeiro, onde Dora trabalha e conhece Josué, e é também uma alusão ao centro do país. O filme de 1998 ainda é muito atual pelas discussões levantadas.
 O que é isso companheiro?
Ano: 1997
Direção: Bruno Barreto
É um filme sobre revolução. É um filme sobre a ditadura. É um filme sobre coragem e desespero. Mas, sobretudo, é um filme sobre como era preciso agir nas décadas de repressão, quando a liberdade, desde as mais simples questões, lhe é tolhida.
“Muitos dos nossos companheiros que lutam por liberdade e democracia estão sendo torturados nas prisões desse governo militar e vocês não ficam sabendo de nada, porque a imprensa está censurada”. É algo para assistir e refletir.

 Rogéria Costa

Febre do Rato
Ano: 2011
Direção: Cláudio Assis
Febre do Rato é nome do tabloide corriqueiro de Zizo (Irandhir Costa), protagonista do filme que é simplesmente um dos caras mais loucos do cinema nacional. Anarquista, adepto do livre amor e das experimentações da vida, quebrando todos os paradigmas impostos pela sociedade. De longe, Zizo parece ser inconsequente e irreparável, mas à medida que a trama se instala percebe-se que a verdade é outra. A coisa toda muda quando, adivinha, Zizo se apaixona. Porém, a paixão dele não é definitivamente de amor romântico mas de um tesão sem igual. Tem poesia, tem loucura, tem sexo, uma característica muito evidente nas lentes de Cláudio Assis que também dirige Amarelo Manga e Baixio das Bestas, que também valem ser vistos.
A história da eternidade
Ano: 2014
Direção: Camilo Cavalcante

“Abre essa porta. Deixa meu amor entrar pra tomar conta de tu, criatura.” A história da eternidade é um filme quase etéreo, de tão delicado, mesmo com a força brutal de seus personagens. Tem uma fotografia e iluminação de obra de arte. E mexe com o espectador, como se fosse nosso próprio olhar sobre aquelas vidas. Vale a pena cada minuto.

 Vanildo Veloso

Lavoura Arcaica
Ano: 2001
Direção: Luiz Fernando Carvalho

Lavoura Arcaica é a parábola do filho pródigo ao contrário. As falas densas e longas contam as lembranças de André (Selton Mello) que foge de casa após se rebela contra o pai e o sistema contra o qual lutava desde a infância. Depois de alguns anos ele é trazido para o lar pelo irmão mais velho a quem lhe conta os retratos de sua infância e vida. Os relatos nos surpreendem, emocionam e por vezes revoltam. Vale pela trilha sonora impecável também.

 Tatuagem
Ano: 2013
Direção:Hilton Lacerda

Mais uma vez um filme que se passa na repressão. A trupe teatral Chão de Estrelas, abordada no longa, lembra bem o grupo Dzi Croquettes, destacado acima nesse artigo. Em 1978, o Chão de Estrelas faz shows que poderiam chocar os mais recatados e desafiavam a ditadura vigente. Mas Tatuagem é, na verdade, um filme sobre afeto, sobre a quebra de tabus nas relações e da abordagem de uma vida sem muitas regras, porém organizada, e pouco hostil. Faz parte de uma safra de longa metragens que se opõe ao tema conflito favela x polícia x política, e dão leveza ao retratar um outro país que também existe.