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sexta-feira 22 junho 2018
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A carne mais barata do mercado ainda é a negra

324.º dia do ano. 20 de novembro. Dia em que se comemora o aniversário de  Joãos, Marias. E também é o dia da consciência negra. A equipe do TO Cult fará de hoje até a próxima semana, uma comemoração especial. Acompanhe.

Mas, exatamente porque existe a data destinada a consciência negra e não tem da consciência branca? Isso sim é racismo!  Vamos falar sobre isso.

Para quem não sabe, o Brasil foi um país escravocrata. Foram transportados para as Américas de oito milhões a 11 milhões de africanos durante todo o período do tráfico negreiro; desse total, 4,9 milhões tiveram como destino final o Brasil. Muitos não chegavam ao destino, devido aos horrores da viagem forçada. Mas, as populações africanas que aqui chegaram mais que sobreviver, driblaram os rigores de um regime de guerra.

E se era uma guerra que viviam, tinham que lutar pela sobrevivência. Engana-se, quem pensa que os escravos que aqui chegaram trazidos forçadamente, aceitavam sua sina e ponto final. Não! Houve luta! Mesmo em uma terra desconhecida, com uma língua totalmente diferente, eles lutaram. E é nesta luta que surge os vários quilombos, entre eles o mais famoso – Palmares e Zumbi.

Quilombo é um termo de algumas regiões do continente africano, que significa um acampamento fortificado. As primeiras notícias sobre o aparecimento de quilombo é de meados do século XVI. O quilombo significava uma alternativa ao regime escravocrata, para grupos de cativos fugidos. Cada quilombo tem sua história de luta pela sobrevivência, no entanto, Palmares foi a maior comunidade de escravos, durante o período escravocrata e que resistiu por mais tempo.

Palmares era um grande aglomerado de comunidades que se apoiavam. No entanto, o líder de uma das comunidades, Ganga Zamba, em 1678 fez um acordo com a Coroa portuguesa, no qual devolvia os escravos fugidos. O acordo opôs Ganga Zamba a Zumbi. Considerado traidor Ganga foi morto. E depois disso, por quinze anos, Zumbi liderou uma guerra palmarina contra os portugueses, garantindo a liberdade e autonomia dos quilombos e de seus habitantes. A guerra acabou em 1694, com a morte de Zumbi e a destruição de Palmares. Data de 20 de novembro.

É por isso, que a consciência negra é comemorada faltando 41 dias para acabar o ano. Para lembrarmo-nos da luta diária contra a mediocridade humana, que faz de seu igual um escravo. Mas essa luta ainda existe? A escravidão se enraizou de tal forma no Brasil, que costumes, palavras, ficaram por ela marcados. Por exemplo, na época da escravidão indivíduos negros trafegando soltos eram presos por suspeita de serem escravos fugidos, hoje são detidos com base em outras alegações que lhes devolvem sempre o mesmo passado e origem.

E sobre o porquê não ter o dia da “consciência branca”, veja o vídeo abaixo:

A cor era e ainda é –infelizmente – um marcador social. Delimitaram classificação de cor: mestiço, moreno – palavra que vem do mouro, mas está ligada a cor escura -, preta e parda – nosso curinga, um grande etecetera na classificação. O termo pardo tem origem no nome do pássaro pardal, conhecido por suas pernas escuras.

Apesar das dificuldades impostas aos negros, eles fizeram muito, com a pouca chance que tiveram. Cito mais um exemplo, dessas dificuldades vivenciadas pelo negro no país, decreto n° 1.331, de 17 de fevereiro de 1854, que estabelece que nas escolas públicas do país, não fossem admitidos escravos. E ainda em 1879 estabelecia o decreto n° 7.031-A, de 06 de setembro, que também dificultava o acesso à educação para negros.

É como diz Racionais Mcs, “desde cedo à mãe da gente fala assim: ‘filho, por você ser preto, você tem que ser duas vezes melhor. […] Como fazer duas vezes melhor, se você tá pelo menos cem vezes atrasado pela escravidão, pela história, pelo preconceito, pelos traumas, pelas psicoses… Por tudo que aconteceu? Duas vezes melhor como?”

Temos uma luta grande ainda. Principalmente, porque o Brasil é um país que ainda busca se apoiar em uma bengala torta, intitulada democracia racial.  Isso nunca existiu. Apenas na cabeça de Ali Kamel, e seu fãs. O racismo velado existente no país, ainda é creditado como não racismo. Se ninguém fala, não existe! Mas existe. É um bombardeio diário. E é para isso que existe o dia da Consciência Negra, para nos lembrar de que a luta de Palmares ainda não acabou. E não acabará enquanto o negro for a maior quantidade de pessoas no país, e tiver menos acesso ao ensino superior.  A luta não acabará enquanto a carne mais barata do mercado for à carne negra.

Este dia é para lembrar a todos os guerreiros e guerreiras – sangue daqueles que chegaram aqui forçados por um regime de exploração – que lutem pela parte que lhe cabe na história passada, presente e futura.  Chimamanda Ngozi Adichie em apresentação para TED, no ano de 2009, diz que a consequência de uma única história é que ela rouba das pessoas sua dignidade. Faz o reconhecimento de nossa humanidade compartilhada difícil. Enfatiza como nós somos diferentes ao invés de como somos semelhantes.

Utilizei como livro de apoio para o texto “Brasil: uma biografia”, de Schwarcz e Starling. Recomendo a leitura, inclusive.