Search
sexta-feira 20 outubro 2017
  • :
  • :

Que Horas Ela Volta? Um filme sobre resistência

 
“Her gracious little daughter is back”. A frase em inglês é dita pela patroa de Val, personagem de Regina Casé, para que ela não  entenda que os patrões estão se referindo a sua filha, Jéssica (Camila Márdilla). Val realmente não entende. Se entendesse, ainda assim, não perceberia a ironia: “Sua graciosa filhinha voltou”. Não, eles não a acham graciosa ou fofa. Ao contrário, Jéssica, torna-se um engodo aos maneirismos sociais estabelecidos há muito, naquele e em muito outros contextos. Mas Jéssica, no entanto, é resistência.
Jéssica, embora seja pobre, filha de empregada doméstica e nordestina, traçou para si caminhos totalmente opostos àqueles que se esperava dela. E em busca de trilhar esses caminhos faz o percurso que muitos e milhares fizeram antes dela, incluindo sua mãe: buscar no sudeste formas de melhoria de vida. Porém, diferentemente dos outros, ela conta com a educação para se ajustar no mundo, a sua busca não é por trabalho em qualquer condição que seja. A filha da empregada quer ser arquiteta. Jéssica é resistência! Não é apenas teimosia, ou arrogância como faz sugerir a patroa de Val. É a postura de quem tem consciência do que é, da capacidade de que é dotada e das barreiras que decide sobrepujar para dar a si o que merece. O que a faz parecer arrogante é que, as vistas da sociedade, o fato de pertencer a uma baixa classe social não lhe autoriza sonhar e lutar para realizar. Da mesma forma, que por ser filha da empregada não lhe faz senso sentar-se com os patrões à mesa, comer determinado tipo de sorvete, ou tampouco entrar na piscina. Jéssica frequenta todos esses espaços. Tranquila e consciente, embora revoltada por perceber que aquelas situações não abraçam sua mãe, mesmo que esta seja “como se fosse da família”.
                “Jéssica, não chame a patroa de Bárbara. É Dona Bárbara.” Val não faz parte da família e sabe disso. Não é parte exatamente porque esta é uma das tantas formas de opressão velada que a nossa sociedade impõe às empregadas domésticas. Ser como se fosse da família legitima apenas que o seu espaço é percebido na casa, que você não é uma estranha qualquer e que lhe dão intimidade para que você possa ir e vir, abrir e fechar, retirar e recolocar enquanto executa suas funções. “Se quebrar tem pagar!” Não é como se fosse da família para habitar com dignidade, o quartinho da empregada é lá no fundo, ligado à função de serviços da casa. Não é como se fosse da família quando sente dor, saudade, cansaço, quando requer cuidado, carinho e atenção. Se as empregadas estão longe dos olhos, como podem estar próximas da emoção? Não é como se fossem da família para que possam ter sua própria família, obter maiores graus de instrução ou envelhecer com dignidade. Não, as muitas “Val” que existem em nosso país não são da família e nem nunca serão. Mas esse é apenas mais um retrato do cotidiano que nem se percebe hostil, de uma sociedade que não limpa o próprio vaso, não tira a mesa em que come, não estende a mão para alcançar a sobremesa que deseja comer. “Me serve mais sorvete” Sem por favor e obrigado. Casa Grande e Senzala.

                Talvez o sucesso do filme de Anna Muylaert seja exatamente pelo fato de mexer tanto com a gente. Nas salas de cinema é perceptível o hiato, o desconforto existente na plateia a cada diálogo e ação do filme. É preciso dizer ainda, que existem muitas “Jéssicas”, mas que elas não se percebem assim. Elas sonham com a possibilidade de um futuro digno e esbarraram em pilhas de louças e roupas sujas. Dos outros. Os acessos estão mais fáceis sim, bem melhor que antes, mas é triste constatar que boa parte dos filhos da mão-de-obra do Brasil ainda olham para si apenas como continuadores dos exemplos dos pais. Não há nada de errado em ser empregada doméstica. Ou lavrador. Ou ajudante de serviços gerais. O erro está na sociedade que acredita que esse “tipo de gente” existe única e exclusivamente para lhes servir, facilitar ou dar sentido a sua existência, e que não há neles personalidade, desejos ou vontades. E aí, quando uma resistência se levanta, como no caso de Jéssica, a realidade lhes toma de assalto, como um murro no estômago, uma pedra na garganta que não se pode regurgitar. 


3 comentários sobre “Que Horas Ela Volta? Um filme sobre resistência