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segunda-feira 19 novembro 2018
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Eva Pereira, produtora, roteirista, diretora e mulher Tocantinense.

Eva Pereira é produtora, roteirista e diretora Tocantinense, natural de Miracema do Tocantins, a primeira capital do Estado. É formada em Letras e autodidata em todas as outras áreas que desenvolve trabalho.
Venceu juntamente com a MZN Filmes, sediada em Palmas a chamada pública da linha de produção de conteúdos (região norte) destinada a TV´s públicas do programa “Brasil de todas as telas” da ANCINE, em 2015 na categoria minissérie.
Eva é a nossa entrevistada dessa semana.
Site TOCult: Onde, como e porque o cinema entrou na sua vida?
Eva Pereira: Até os nove anos eu não conhecia a televisão, visto que eu morava na área rural (na roça) em Miracema onde escutava rádio novela. Você acredita?
Site TOCult: Acredito.
Eva Pereira: Eu pegava o rádio do meu pai para acompanhar as novelas. Meu pai economizava as pilhas para escutar futebol à noite. Logo, quando ia escutar o futebol, muitas vezes tinha uma surpresa.
Após essa idade eu fui morar na cidade e meu primeiro contato com o cinema em si foi com filmes exibidos na sessão da tarde.  Hoje em dia me tranco em finais de semana, quando tenho tempo, e fico horas assistindo a filmes para compensar todo o tempo que eu não os assistia.
Já adulta tive meu primeiro contato com o teatro, atuando mesmo, e através dele conheci pessoas que me levaram a ter o primeiro contato com audiovisual, fui âncora de programas eleitorais.
Já neste momento, como âncora eu ficava incomodada, sou muito critica e achava que seria possível melhorar naquela posição, poderia melhorar a dicção, postura, eu era muito atrevida e comecei a estudar sobre isso.
Comecei a mexer nos textos que me mandavam, nunca ficava como o original. Dava palpites na direção também.
Site TOCult: Tudo de maneira autodidata? Qual foi o primeiro grande projeto no cinema?
Eva Pereira: Sim tudo de maneira autodidata. O primeiro grande projeto foi o “Cinema BR em Movimento”, que é um projeto criado em 2000 pela MPC Produtora, do Rio de Janeiro. O projeto promove o acesso das comunidades distantes ao cinema brasileiro. Eu já trabalhava como produtora, e tive o grande privilégio de trabalhar com o projeto durante sete anos e ganhar como melhor produtora há três anos.
Em 2007 tive a segunda grande oportunidade que foi entrar na produção de Alice, minissérie da HBO que com toda a certeza do mundo abriu muitas portas.
E foi assim, nesses dois trabalhos e em todos os outros, que surgiram pessoas que eu levo para a minha vida inteira.
Tenho alguns anjos da guarda no profissional que me ajudam muito e o Tocantins no pessoal para recarregar minhas energias.
Esse é o resumo.
Site TOCult: Qual sua formação acadêmica?
Eva Pereira: Minha formação acadêmica é letras, engraçado isso né?
Site TOCult: Como aprendeu a arte de escrever roteiros?
Eva Pereira: Não fiz curso de roteirista. Nada em minha vida foi estudado no inicio. Li alguns livros básicos, mas o que mais me ensinou mesmo foi ler o roteiro de filmes e depois assistir ao filme. Fiz isso com vários, posso te citar Romeu e Julieta e Cidade de Deus, por exemplo.
Além disso, o Tocantins é uma grande escola nessa área, pois você é obrigado a fazer tudo: produção, escrever o roteiro, direção, enfim, é uma necessidade.
Sou uma escritora de roteiro que precisa se emocionar com o que escreve gosto do drama, de escrever drama.
Site TOCult: Então você é uma escritora dramática?
Eva Pereira: Sou sim, uma escritora de roteiros de drama, dramática (risos).
O mais interessante nisso tudo é que este ano entramos com uma carteira de projetos para concorrer ao núcleo criativo na chamada pública da ANCINE e o meu roteiro melhor avaliado foi de uma comédia. Não escrevo comédia, ou melhor, não é corriqueiro. Quando verifiquei a nota do roteiro, confesso que me assustei.
Site TOCult: Surge então uma nova Eva – a comédia?
Eva Pereira: (risos). Surge a comédia Eva e foi sem querer querendo (risos).
Site TOCult: E quando foi seu primeiro prêmio de roteiro? Qual a importância do prêmio?
Eva Pereira: Nossa! Importantíssimo esse primeiro prêmio.
Ele aconteceu em 2007, foi o meu primeiro prêmio, com o roteiro “Do outro lado” – que conta uma história inspirada em uma discussão entre amigos sobre um crime que aconteceu aqui no estado.
O premio em si foi extremamente importante do ponto de vista pessoal e profissional, pois antes dele eu sentia vergonha de apresentar meus trabalhos, de dar luz a meus roteiros. Depois dele fiquei sem vergonha mesmo. Concorri em vários editais estaduais e ganhei.
O ultimo foi com o premio da minissérie. Hoje posso lhe dizer que sei escrever roteiro, fiquei mais confiante.
Site TOCult: De onde vem às inspirações para seus roteiros?
Eva Pereira: Inspiração! Meu Deus, inspiração!
Bom… Em meus roteiros vejo muito o Tocantins. Um crime que aconteceu e que me inspirou, uma fala ou noticia de jornal que vi e me despertou.
Escrevi alguns curtas para a TV Brasil, era Rio de Janeiro, era Copacabana, mas mesmo assim ainda tinha muita coisa daqui do Tocantins, estava muito presente. É minha essência mesmo, de onde sou, para onde retorno sempre.
Têm muitas sensações, sonhos, a obra leva muito de seu autor. Eu sou muito sensitiva, aquele lance de ver, arrepiar e ter a certeza que será uma grande história através desse arrepio. Loucura mesmo! (risos).
Site TOCult: E a Eva diretora como surgiu em sua vida?
Eva Pereira: Pela necessidade de se autodirigir. Eu era atriz de teatro e tive uma frustração imensa quando fui para frente da tela. Percebi que estava muito caricata com expressões,  aquele lance caras e bocas e jogadas de cabelo e tudo mais que tinha direito (risos).
Por mais que os diretores dissessem, e eu tive ótimos diretores, que estava bom, eu não conseguia concordar, não achava que estava bom. Eu me conhecia. Eu me conheço.
E foi dessa observação que surgiu a Eva diretora, começou a abrir espaço para essa verve, apareciam VT´s e pediam para que eu dirigisse.  Fiz muita campanha politica, muita direção de VT´s de campanha politica.
Mas no cinema foi um pouco mais lento acontecer a direção, porém cheguei mais segura que no roteiro, visto que quando comecei a dirigir no cinema eu já tinha a noção com os vídeos institucionais.
Site TOCult: Fale-nos da Eva produtora.
Eva Pereira: Eva produtora foi o inicio de tudo isso.  E é algo que não consigo largar. Sou produtora associada de trabalhos no Rio de Janeiro. Agora mesmo sou produtora associada de um longa-metragem em Minas do qual sou roteirista.
Acredito que a produtora é o mais sólida de todas as minhas verves, exatamente por estar há anos nesse campo, explorando, me aperfeiçoando, fazendo network. A produtora não sai de mim, pois é onde tenho o maior acumulo de conhecimento.
Fiz tudo de produção de shows e eventos à promoter de Boate. A produtora se mostra muito latente quando estou na direção e sinto-me como se tivesse dificuldade de delegar a produção, mas não é isso, é que conheço a área, visualizo o que está acontecendo e dou palpites, sempre. Não consigo desligar a produtora nunca.
Esse ano eu coordenei todo o conteúdo audiovisual sobre o Brasil para a Expo Milão. No final do trabalho eles elogiaram muito, e isso foi pelo fato de ter aprendido a fazer tudo, então facilita, você acaba trabalhando com uma equipe menor e de certa forma entendendo e tendo mais propriedade do conjunto do trabalho.
Site TOCult: Trabalha ou tem o desejo de trabalhar com teatro? Roteiro/Diretora?
Eva Pereira: De certa forma trabalho, porém pouco.
Por exemplo, no ano passado eu ganhei um premio de dramaturgia da Funarte (de teatro) e havia esquecido, lembrei-me dias atrás quando fui atualizar meu curriculum. Eu escrevi este texto em uma noite.  O mais interessante é que um amigo fez a inscrição no prêmio e ele que me avisou que havia ganhado. Me desliguei do Teatro, no que tange trabalhar com ele, a ponto de esquecer de um premio no qual concorria.
É uma peça de teatro que se transformou em argumento de cinema. É o argumento da comédia, bem avaliada pela a ANCINE “Luziléia”.
Site TOCult: Nossa que bacana essa transformação toda. Mas o desejo, o teatro?
Eva Pereira: Sim interessante, pois tudo está em movimento e sempre há várias possiblidades. Mas voltando ao assunto e sendo muito sincera eu não tenho vontade de trabalhar com teatro no sentido de dirigir e escrever, no momento estou sem “tesão”. Quando não sinto “tesão”, não consigo fazer acontecer. Não digo que é definitivo, mas é por enquanto, neste momento.
Você me fez lembrar que ainda tenho “tesão” para atuar na frente das câmeras, algo que nunca fiz. Tenho um curta que escrevi e que ganhei um premio este ano que é “Cotinha” no qual tem um papel que tenho muita vontade de fazer a Mazé que é uma das protagonistas. Ainda estou pensando, estou quase fugindo da raia, agora que estamos próximos de gravar.
Site TOCult: Por quê?
Eva Pereira: Porque acho que não tenho mais idade para a Mazé.
Site TOCult: Que bobagem! Vá e faça você está ótima!
Eva Pereira: Vou pensar, gostaria muito de fazer mesmo. Acho que vou encarar o desafio.
Site TOCult: Está desafiada.
Eva Pereira: Nossa (risos)! Fui intimada.
Site TOCult: Defina documentário em seu contexto.
Eva Pereira: Eu acho o documentário uma grande escola, inclusive para a ficção porque você entende a linha de tempo, o que vai ser retratado, as marcações, e tudo isso pode ser transportado para a ficção, pode ser um elemento de ajuda, pode ser um elemento de realidade que ajudará a emocionar a contar a história. Na realidade de tudo tiramos lições que serve para os mais variados trabalhos.
Tenho dois documentários, longa-metragem documentário, um é sobre a folia do divino de Monte do Carmo –TO – Dia de Folião e o outro é sobre brasileiros que moram em nova York.
Gosto muito dos dois trabalhos, mas precisava de um mergulho maior nesse campo e nesse novo trabalho. Neste novo documentário que está prestes a ser rodado eu conseguirei essa imersão para me sentir completa. Documentário sobre os povos indígenas.
Quando gravo documentário eu gosto de respeitar tudo. Tenho a liberdade de retratar o que está acontecendo com todos seus sons, todas suas sombras, imagens, imperfeições, como por exemplo, se há cachorro latindo tenho que deixar o som do cachorro latindo.
Site TOCult: O que é mais fácil de roteirizar e dirigir: Filme ou documentário?
Eva Pereira: Eu tenho facilidade de roteirizar ficção, filme. Documentário eu traço uma linha do tempo, uma estrutura a ser seguida e trabalho a partir dessa estrutura. Não faço um roteiro como em ficção. O documentário tem que ser aberto a possibilidades, tem que ter liberdade.
No que tange a Direção gosto de documentário é mais fácil por causa da liberdade citada, nele eu não peço pra você deixar de ser você como o ator faz, estou pedindo pra você ser você e isso torna a direção mais fácil.
Logo, roteiro é ficção e direção é documentário.
Site TOCult: Qual o significado dos povos indígenas para você?
Eva Pereira: Eu sou meio índia, todos nós somos. Temos uma herança indígena lá do inicio. Não há como negar, por mais que muitos tentem.
Cresci em Miracema do Tocantins, de frente para uma cidade genuinamente indígena, no que tange ter muitas aldeias indígenas (Tocantínia).
Em minha cidade eu morava na fazenda. Deslocava-me com minha mãe até a cidade para irmos ao mercado. Sempre me encontrava com índios na cidade. Tinha uma fixação por eles. Minha mãe sempre me perguntava se eu queria ir embora para a aldeia.
Lembro-me que tinha muito preconceito e tem até hoje. Eu cresci carente do contato com eles apesar da proximidade, mas eu queria saber mais, queria entender mais, não queria ficar com aquela figura do preconceito posto pelos outros.
Queria fazer um mergulho quase antropológico, e nem sabia o que era esse mergulho na época.
Site TOCult: E como fez para não ficar com esse preconceito posto pelos outros e fazer esse mergulho?
Eva Pereira: Então! Com toda referência que tinha tornei-me uma adulta ignorante sobre o assunto, sem até então ter a possibilidade de fazer o tal mergulho.
No entanto, nesta época fui atrás de informações para ter a minha percepção sobre os índios, para construir meu ponto de vista.  Conheço quase todas as etnias do Tocantins, porém tenho muito que conhecer ainda.
Site TOCult: E essa imersão deu frutos?
Eva Pereira: Sim, o bacana é que toda essa análise, essa imersão deu frutos, foi dela que surgiu o projeto “Nossos Povos” que é um projeto aprovado pela Lei Rouanet e foi idealizado para tentar suprir a lacuna que a criança tocantinense tem sobre a história do Tocantins, sobre a formação inicial de seu povo.  Tem o intuito também de amenizar e até mesmo tentar acabar com a discriminação, com o preconceito a partir das crianças. Compreendi que o indígena tem o ser, busca o ser e não o ter.
O projeto comtemplará cartilha para as escolas, um documentário e uma web série.
Outro fruto foi à minissérie e o documentário que virão.
Site TOCult: Então realmente fez imersão e deu frutos.
Eva Pereira: Sim, alguns frutos. E fico feliz por isso. Muito feliz!
Site TOCult: Parabéns! Ficamos realmente felizes ao ver o brilho em seus olhos quando fala do projeto.
Eva Pereira: Obrigada!
Site TOCult: Então vamos ao assunto: a chamada publica da ANCINE? Conte-nos resumidamente o caminho percorrido.
Eva Pereira: Eu deixei minha vida no Tocantins para seguir um sonho. Desmontei casa, vendi o carro e fui para o Rio de Janeiro. Posso lhe dizer que deu certo, mas lá faço trabalhos nas minhas áreas de atuação por demanda, por contrato, de acordo com as necessidades dos outros.
Site TOCult: Então lá você conseguiu o que queria, mas faltava algo, até mesmo pelo que entendi o trabalho por demanda pode muitas vezes não ser o trabalho do sonho, aquele fruto seu do que você pensou e idealizou.
Eva Pereira: Sim isso mesmo. Me senti realizada, mas queria algo mais. Eu sempre tive a convicção que necessitava fazer algo aqui, no Tocantins. Sentia esse chamado, essa vontade de estar junto do Tocantins.
Quando o André Araújo me convidou para participar do longa-metragem “Palmas eu gosto de tu”, aceitei por ele ser um grande parceiro e por essa vontade de falar de minha terra. Foi muito legal, extremamente proveitoso acredito que para todos que participaram, seja no roteiro, direção, atuação, produção, enfim.  Foi nessa ocasião que o Diego Mazaron da MZN me chamou e disse que queria investir em cinema e perguntou se eu poderia ajuda-lo.
Eu já tinha participado de algumas reuniões aqui e eu tinha a certeza de que o Tocantins precisava de uma incubadora para projetos da área. A incubadora é o núcleo criativo, onde temos a possibilidade de ensinar a criação de roteiro, de como escrever roteiro, visto que geralmente as pessoas têm boas histórias, bons argumentos, mas não sabem escrever um bom roteiro, correndo-se o risco de perder a essência da história.
Site TOCult: Nossa! Muito bacana isso e necessário mesmo.
Eva Pereira: Sim muito necessário. Através do desejo de alcançar esse sonho, vislumbramos a chamada pública da ANCINE, que dentre as contemplações está o núcleo criativo. Era a hora! O Mazaron tinha estrutura, vontade e humildade. Convidamos produtores que trabalham com audiovisual, pessoas interessadas no cinema e tivemos a oportunidade de ouvir pessoas, conhecer projetos, ideias, argumentos. Pudemos ouvir pessoas que gostavam e trabalhavam com cinema. Todos se ajudaram. Foi uma troca muito importante.
E neste tramite a ANCINE abriu a chamada publica para o programa “Brasil de todas as telas”. Eu estava no Rio de Janeiro realizando um trabalho para a Bananeira Filmes e pensei: É a hora do Tocantins! Desta conversa inicial surgiram 6 projetos para o núcleo criativo e a minissérie para a TV. No núcleo criativo, não fomos comtemplados, apanhamos um pouco, quanto aos roteiros, mas tivemos muitos elogios também. Servirá para o aperfeiçoamento.
Site TOCult: Parabéns! Tudo é crescimento. No próximo com toda essa experiência com certeza ganharão. E a minissérie, vocês foram contemplados, achamos excelente. Conte-nos sobre ela.
Eva Pereira: Sim fomos contemplados. Maravilhoso! Minha inspiração foi um poema de minha amiga Narubia Werreriá (etnia Iny) que li, além de toda uma pesquisa que realizei sobre a questão do suicídio indígena (nos povos Iny e Guarani-Kaiowá). Precisava escrever, porém estava sem tempo, pois fui contratada para o trabalho em Brasília, aquele da Expo Milão. Escrevi o roteiro na madrugada, das 3 da manhã as 6, quase não dormi nesses dias. Foram cansativos. A minissérie contém 13 episódios.
Foram 27 projetos do Tocantins escrito na chamada pública do programa “Brasil de todas as telas”. É importante também salientar que a mão de obra para o projeto da minissérie, com exceção dos povos Iny e Guarani-Kaiowá – os atores principais dessa obra – será do Tocantins.
Site TOCult: Qual a sensação quando soube do resultado?
Eva Pereira: Caramba foi engraçado!
A ANCINE em nenhum momento disse que havíamos ganhado, foi suspense total. No entanto ela insistiu muito que participássemos do anuncio em Brasília.
Porém, o anuncio era na manhã do dia 02 de setembro, dia seguinte ao Grande Premio do Cinema Brasileiro, no Rio de Janeiro, que é o Oscar brasileiro para a categoria e eu queria muito participar dessa festa.
Era impossível estar na noite do dia primeiro no Rio de Janeiro e na manhã do dia 02 em Brasília. Optei por ir a Brasília.  Era eu lá representando várias pessoas, a Narúbia, a cacique Damiana, dentre tantas outras envolvida no projeto.
Site TOCult: Muita responsabilidade. Deve ter sido uma sensação incrível?
Eva Pereira: Foi sim, incrível. Eu tremia dos pés a cabeça.  A região norte é a primeira a ser apresentada e o Tocantins é o ultimo estado.  Percebi que todos os chamados, antes de nós, não gritavam, não faziam festa. Quando fomos contemplados, nos cumprimentamos sem a euforia merecida. Não gritamos por que ninguém até o momento havia gritado… Não gritamos!
Após nós o pessoal da região Centro Oeste gritou. Perdemos esse momento do grito. Essa emoção do grito! Aprendemos, faremos no próximo, porque o próximo premio será o de núcleo. Vamos trazer o núcleo para o Tocantins.
Site TOCult: Vamos! Mas, e sua sensação pessoal?
Eva Pereira: É de agradecimento. Muito agradecimento! Hoje o Tocantins está no mapa de produção brasileira. Isso é maravilhoso. Colocarei na moldura os pareceres, tanto da minissérie que nos contemplou quanto do núcleo. O sistema da ANCINE é incrível!
Foi uma conquista do coletivo, do grupo, de todos nós que aqui estamos vivos e de todos os indígenas que morreram.
O nome original da minissérie é Feliz Força Nova. É um trecho do poema da Narúbia – Diário das Forças.
Site TOCult: E qual seu sentimento sobre tudo isso, sobre as mortes dos povos indígenas?
Eva Pereira: Primeiro que não é pela questão de terras, como colocam alguns. O povo Guarani-Kaiowá realmente possui a questão da terra, mas os povos Iny da Ilha do Bananal não.
Fico refletindo sobre os Jogos Mundiais Indígenas, o mesmo povo que faz esses jogos para o mundo, fecha os olhos para os problemas que são latentes.
Não dá mais para fechar os olhos para essas questões. É muito sofrimento sem resposta. Nossa responsabilidade com esse projeto é enorme, posto que, queremos sim abordar a questão e dar luz a essa tragédia.
Temos a certeza que esse projeto só foi possível por causa do Governo atual, que pode ter todos os problemas, mas que é aberto para essas questões. Se fosse outro governo não sei se o MINC teria nos premiado com essa minissérie.
Site TOCult: Qual a CENA inesquecível de um filme?
Eva Pereira: “Primeiro Dia”, direção do Walter Sales e da Daniela Thomas, cena do Matheus Nachtergaele prestes a morrer contracenando com Luiz Carlos Vasconcelos – os dois são ex presidiários – e o Luiz concede o ultimo desejo. Matheus reza o pai nosso. Ele se apropria de uma oração que pra mim é sagrada e que aprendi com minha avó, para dar vazão a sua raiva, a toda sua frustração e ele faz de um jeito que ao mesmo tempo em que eu morria de ódio; ele conseguia me convencer de que seu ponto de vista está correto. É inexplicável. Recomendo que assistam e se arrepiem como eu arrepiei.
Site TOCult: Interessante que dentre tantos filmes mundo afora você escolheu um filme brasileiro de um excelente diretor, com dois atores fantásticos, que ainda tem Fernanda Torres para encontrar a melhor cena. E digo interessante por estarmos em um país onde o apelo pela produção especialmente americana é muito grande. Qual a explicação?
Eva Pereira: Eu faço cinema brasileiro, voltado para o Brasil, que fala do povo do meu país, logo, tenho que ter uma referencia muito grande dentre nossos filmes. Aliás, temos excelentes produções em nosso país que infelizmente nosso povo não valoriza. Infelizmente mesmo. Basta ver a porcentagem de salas de cinema onde há filmes brasileiros em cartaz.
Site TOCult: Melhor filme que já viu na vida?
Eva Pereira: Ai!!! Muito difícil. De forma direta e sem pensar muito: Dançando no Escuro, de Lars Von Trier, com a Björk. Mas não acho justo só um. Posso citar mais três.
Site TOCult: Claro que pode! Utilizaremos como indicações da Eva.
Eva Pereira: Cinema Paradiso, de Giuseppe Tornatore; Lavoura Arcaica, de Luiz Fernando Carvalho e Abril Despedaçado, de Walter Salles.
Site TOCult: Qual a história mais bem contada do mundo?
Eva Pereira: Caramba! Adoro “Tudo sobre minha mãe” e “Fale com ela”. Tão difícil achar uma história apenas. Posso ficar com o roteirista, diretor que conta as melhores histórias/estórias do mundo?
Site TOCult: Pode sim.
Eva Pereira: Pedro Almodóvar.
Site TOCult: Um ator, uma atriz, um diretor e um roteirista que você considere o melhor.
Eva Pereira:
Diretor: Lars Von Trier e Pedro Almodóvar.
Roteirista: Woody Allen.
Ator: Selton Mello.
Atriz: Débora Falabella.
Site TOCult: Qual sua visão sobre o cinema brasileiro na atualidade?
Eva Pereira: Ele está no melhor momento dele. Conseguimos retomar o volume de produção. O Brasil inteiro está produzindo. Há exemplos como a produção de Pernambuco e de muitos outros estados. O cinema não está mais restrito em São Paulo e Rio de Janeiro. Hoje se tem algo que funciona com muita competência é a ANCINE que conseguiu democratizar o cinema no país. Hoje temos oportunidades em nossos próprios estados e isso é maravilhoso.
Site TOCult: Qual o melhor filme brasileiro de todos os tempos?
Eva Pereira: Pela sua importância na retomada do Cinema Brasileiro, através de suas indicações ao Oscar: “Cidade de Deus” de Fernando Meirelles e Katia Lund.
Site TOCult: Defina Miracema do Tocantins em uma palavra!
Eva Pereira: Essência.
 
Site TOCult: São Paulo, Rio de Janeiro ou Brasília. Qual melhor cidade para desenvolver seus trabalhos?
Eva Pereira: Sinceramente, onde me chamarem para trabalhar. No entanto chamo atenção para o cinema de Brasília, para os atores, para os profissionais de maneira geral, que está numa ascendência. No trabalho que fiz em Brasília, não consegui profissionais que eu desejava porque todos estavam trabalhando com cinema.
E isso é muito latente. Talvez das três cidades citadas a que mais evoluiu nos últimos anos em termos de profissionais para o mercado seja realmente Brasília.
Site TOCult: Ajudando no censo de nosso amigo Marcus Garcia: Caetano, Gil ou Chico?
Eva Pereira: Por inspiração o Gil. Por tesão o Chico (risos). Coloca o Gil.
Site TOCult: Como estamos no Outubro Rosa: Bethânia, Gal ou Elis?

 

Eva Pereira: Eu escolheria as três. Mas como é só uma: Elis Regina. Amo! Bethânia é iluminada, Gal tem uma voz incrível, mas Elis, em minha opinião, é Elis – frágil e colossal.