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terça-feira 16 janeiro 2018
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Eu sou preta!

Eu nunca tive problemas em ser negra, até que uma pessoa me chamou de “pretinha para frente”, eu tinha 8, 9 anos. Naquele momento eu percebi que a minha cor favorita, era um problema para muita gente.
Ao longo da vida, eu ouvi muitas e muitas vezes brincadeirinhas com o negro, mas não porque a pessoa era racista, dizia, era só brincadeira. Aos dez anos me esfreguei com Bombril, porque não queria mais que brincassem comigo. E os acúmulos de preconceito foram acontecendo.
Meu cabelo, crespo, também sempre foi um problema para os outros. Ainda bem que sempre o aceitei, graças a minha mãe e meu pai que diziam sempre que meu cabelo era bonito. O cabelo liso estava na moda durante minha adolescência e ouvi diversas e diversas vezes que eu deveria simplesmente alisa-lo, ou que ele era “até” bonito, se fosse mais “baixo” um pouquinho.
De minha infância até hoje, minha cor sempre foi um meio para brincarem comigo, e o discurso era o mesmo “estou brincando”. É excepcional ver pessoas contrariadas e perplexas com você porque não aceitou uma brincadeirinha: “levam tudo para o lado pessoal!” “Não podemos dizer nada que já estão apelando!”, dizem. Será que não percebem que estão “brincando” com a nossa cor durante séculos?
Ou pior, quando você expõe o preconceito recorrente que sofre, dizem que é você que tem um “problema” com a sua cor, ou que você tem mania de perseguição, ou até que é você o racista.
Fomos ao longo de toda a nossa vida, ensinados a acreditar na crença da “democracia racial brasileira”, e ai de quem aponte o contrário. No Brasil, racismo? Imagina! Esse bicho não tem aqui
Dentre os muitos problemas que você enfrenta, mesmo que o Brasil “não” seja um país racista, o que mais me incomoda é este discurso de igualdade racial. A banalização do que eu sofro e outros milhares pelo país, como se isso não fosse nada demais, “oras”, isso é sim e tem todos os demais!
A frase “AH! Mais isso é comum… nos estádios, na rua, na vida, as pessoas brincam mesmo e tal”. Velho! Isto está errado! Este “C*” (entenderam acredito) está errado!
Por que isso é comum? Porque isso seria comum? Porque isso foi comum? Porque isso será comum? Eu não quero e nem necessito do comum. Não quero! Eu tenho imenso apreço pelo incomum. Quero a minha liberdade de ser. Quero minha cor, meu cabelo natural. Quero o mistério que está por baixo dos caracóis dos meus cabelos – Caetano escreveu e eu me deslumbrei.
É claro que algo assim é comum. O Brasil foi – e podemos dizer que ainda é – um país escravocrata, racista, munido de preconceitos. É claro que existem piadinhas com os negros, porque eram eles os oprimidos ao longo de toda a história. Como é que isso não seria comum, se o preto nunca teve nenhuma posição para dizer um basta, um chega, cansei! Pois eu digo: cansei da cozinha, quero a sala de estar, pipoca e um bom filme.
E dizer o que ao patrão quando começa a brincadeirinha? Pare! O que dizer a polícia que vai à favela? Respeito! Esse foi o lugar que a sociedade, no final do século XIX empurrou os negros, deixando-os assim sentir a sensação de liberdade e que passou anos aquém de qualquer política pública para nivelamento social.
O preto sempre foi oprimido. De que maneira ele ia acabar com a opressão se a única oportunidade que teve foi se esconder e aguentar tudo de boca calada, sobreviver, ter sobrevida, tocar a vida e como diz o sambista: deixar a vida me levar, ou no caso te levar!

É claro que este tipo de brincadeirinha é comum. E fico envergonhada ao ver pessoas que não percebem isso. É muita falta de compreensão da própria história. Mas, é como diz Mia Couto “todos podem até se colocar no lugar do outro, difícil é tentar ser este outro, viver como este outro”. Porque aí, neste caso, você sentiria seus medos, suas angustias, teria sua vivência e não apenas imaginaria.