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sábado 18 novembro 2017
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Vandré completa 80 anos preso em sua solidão


Chegando aos 80 anos hoje 12/09 o compositor de “Pra não dizer que não falei das flores”,  “Disparada” entre outras músicas que marcaram um período sombrio de nosso País, Geraldo Vandré continua em silêncio
Um homem recluso cheio de mistérios desde sua volta do exílio, nas poucas entrevistas concedidas depois do fim da ditadura militar se mostra extremamente amargurado e  numa espécie de transe que não tem fim.
Em entrevista concedida ao caderno Vida, o jornalista Vitor Nuzzi, autor da biografia não autorizada Geraldo Vandré — Uma Canção Interrompida, abordou os fatos essenciais na carreira de Vandré, como a participação no FIC (Festival Internacional da Canção) da TV Globo, em 1968, seu retorno ao Brasil após o exílio (passou pelo Chile, Alemanha e França) em julho de 1973, a falta de indícios de ter sido torturado, seu desaparecimento do cenário musical, entre outras coisas.
Que importância Vandré tem para a música brasileira? Muita gente o conhece apenas como o compositor de “Pra não dizer que não falei das flores”, mas o que há além disso?
A obra de Geraldo Vandré é mais ampla do que “Pra não dizer que não falei das flores” e “Disparada”, suas obras mais conhecidas, embora as duas sejam de inegável importância, verdadeiros divisores de água da música popular. É preciso destacar o trabalho de Vandré como pesquisador da cultura regional e da moda de viola. Também foi Vandré o primeiro cantor a defender uma música de Chico Buarque em festivais, com “Sonho de um Carnaval”, na TV Excelsior, em 1965. E é dele a trilha sonora de um dos grandes filmes brasileiros, “A Hora e a Vez de Augusto Matraga”, baseado em texto de Guimarães Rosa edirigido por Roberto Santos em 1966. Estamos falando do autor de algumas das mais belas canções da música popular, caso de “Porta Estandarte”, “Fica Mal com Deus”, “Canção Nordestina”, “De Serra”, de “Terra e de Mar”, “Pequeno Concerto que ficou Canção”, “Terra Plana”, “Cantiga Brava”, “Quem quiser Encontrar Amor”, entre tantas outras, além do intérprete marcante, com Ana Lúcia, de “Samba em Prelúdio” (Baden Powell e Vinícius de Moraes). A carreira de Vandré é relativamente curta, apenas cinco LPs, mas sua obra é significativa.
Hoje, aos 80 anos, como o músico é visto?
Penso que hoje prevalecem as lendas em torno de Vandré, que prejudicam o conhecimento

de sua obra artística. O seu afastamento do cenário musical, desde os anos 1970, foi determinante para isso.

Gostaria que você citasse dois fatos essenciais na vida e na carreira do Vandré.
A participação no FIC (Festival Internacional da Canção) da TV Globo, em 1968, é um momento crucial para o artista Vandré e para o cidadão Geraldo. Ali, ele deixou marcada para sempre sua presença na história, ao cantar sozinho, para um Maracanãzinho lotado, sua mais conhecida canção. E a consagração com “Pra não Dizer que não Falei das Flores” foi também o fim do artista. O auge e o fim. Ele mesmo já declarou isso: depois dali, não houve mais carreira. Vandré teve de deixar o país poucos meses depois, passando mais de quatro anos no exílio. Outro fato importante foi exatamente o seu retorno, em julho de 1973. Uma das condições para sua permanência foi uma entrevista forjada ao Jornal Nacional, em agosto, um mês depois de sua volta. A reportagem anunciava que ele voltava ao Brasil naquele momento, embora já estivesse por aqui. Nessa entrevista, Vandré declara que pretende integrar à nova realidade brasileira e fazer apenas canções de amor e paz. Ao se referir ao próprio trabalho, diz que a arte às vezes é usada por grupos com interesses políticos.